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Saúde Publicado em Por Stéfano Barcellos

CID retirada de duplo J: guia rápido e completo

CID retirada de duplo J: guia rápido e completo
Validado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Contextualizando o Tema

A codificação correta de diagnósticos e procedimentos médicos é essencial para a gestão de sistemas de saúde, faturamento hospitalar e registro de prontuários. Entre as dúvidas comuns que surgem na prática clínica e administrativa está o chamado “CID retirada de duplo J”. Muitos profissionais de saúde, codificadores e gestores acreditam que existe um Código Internacional de Doenças específico e universal para a remoção do cateter duplo J (stent ureteral). Contudo, a realidade é mais complexa e depende de múltiplos fatores clínicos.

O cateter duplo J é um dispositivo amplamente utilizado em urologia para manter a permeabilidade do ureter após cirurgias de cálculo renal, obstruções, traumas ou manipulações endoscópicas. Sua retirada pode ser realizada de duas formas principais: por fio exteriorizado (geralmente em consultório) ou por cistoscopia/endoscopia (em ambiente hospitalar ou ambulatorial). A codificação adequada desse procedimento não se resume a um único CID; ela exige que se identifique o motivo clínico da presença do stent, a eventual complicação associada e o tipo de técnica empregada.

Este artigo tem como objetivo esclarecer o que significa, na prática, a “CID retirada de duplo J”, apresentar os códigos mais frequentemente associados, diferenciar CID de procedimento e fornecer um guia prático para profissionais que lidam com a codificação no Brasil. Ao final, o leitor terá uma compreensão sólida sobre como registrar corretamente a remoção desse dispositivo, evitando erros de faturamento e inconsistências na documentação.

Como Funciona na Pratica

1 O que é o cateter duplo J e por que é utilizado?

O cateter duplo J (também chamado de stent ureteral) é um tubo fino e flexível, geralmente de silicone ou poliuretano, com extremidades enroladas em formato de J (daí o nome “duplo J”). Ele é inserido no ureter, com uma extremidade na pelve renal e a outra na bexiga, para drenar a urina do rim para a bexiga, contornando obstruções ou protegendo a via urinária após procedimentos.

Suas principais indicações incluem:

  • Cirurgias para remoção de cálculos renais ou ureterais (litotripsia, ureterolitotripsia, nefrolitotripsia percutânea);
  • Obstruções ureterais por tumores, estenoses ou compressão externa;
  • Proteção do ureter durante cirurgias abdominais ou pélvicas;
  • Tratamento de infecções urinárias obstrutivas (pielonefrite obstrutiva);
  • Pós-operatório de transplante renal.
A permanência do cateter varia de alguns dias a semanas, conforme a indicação clínica. Em geral, a retirada ocorre entre 1 e 3 semanas após a colocação, mas pode se estender por meses em casos selecionados.

2 Formas de retirada do duplo J

A retirada pode ser efetuada de duas maneiras principais:

a) Retirada por fio exteriorizado (tração)

Nessa técnica, o cateter duplo J possui um fio de nylon ou sutura que sai pela uretra junto com o dispositivo. O médico puxa esse fio no consultório, sem necessidade de anestesia ou endoscopia. É rápido, simples e de baixo custo. Indicado para stents de curta permanência (até 2–3 semanas).

b) Retirada por cistoscopia ou endoscopia

Quando o cateter não possui fio exteriorizado ou quando há dificuldade de remoção (incrustação, migração, fratura), utiliza-se um cistoscópio (endoscópio introduzido pela uretra até a bexiga) para visualizar e agarrar a extremidade vesical do stent. Esse procedimento pode ser feito sob anestesia local ou sedação, em ambiente ambulatorial ou hospitalar. É o método padrão para stents que permanecem por mais tempo ou que apresentam complicações.

3 A codificação clínica: CID e procedimentos

A expressão “CID retirada de duplo J” gera confusão porque, na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), não existe um código específico para o ato de remover o stent. O CID é um sistema de classificação de doenças, lesões e causas externas, não de procedimentos. O procedimento de retirada é codificado por sistemas próprios, como a Tabela de Procedimentos do SUS (SIGTAP) ou a Classificação Brasileira de Procedimentos (CBHPM/TUSS).

Portanto, ao registrar a “retirada de duplo J” no prontuário, o médico deve:

  • Informar o diagnóstico principal (a condição que justificou a colocação do stent ou o motivo atual da retirada, como fim do tratamento, complicação ou troca);
  • Informar o procedimento realizado (código de procedimento, não CID).
Os CIDs mais comuns associados a esse contexto são aqueles relacionados à condição de base (ex.: cálculo renal, obstrução) ou a complicações do dispositivo (ex.: infecção, incrustação, obstrução). A seguir, listamos os principais.

4 Lista: Principais CIDs relacionados ao contexto do duplo J

Abaixo, os códigos da CID-10 mais frequentemente utilizados na prática urológica envolvendo o cateter duplo J:

  • N20.0 – Cálculo do rim – Litíase renal, condição mais comum que leva à colocação de stent.
  • N20.1 – Cálculo do ureter – Cálculo ureteral, muitas vezes tratado com ureterolitotripsia e stent.
  • N20.2 – Cálculo do rim com cálculo do ureter – Presença simultânea de cálculos renais e ureterais.
  • T83.0 – Complicação mecânica de dispositivo de drenagem urinário – Inclui obstrução, migração, incrustação ou fratura do cateter duplo J.
  • T83.1 – Infecção e reação inflamatória devida a dispositivo de drenagem urinário – Infecção urinária associada ao stent.
  • N28.8 – Outros transtornos especificados do rim e do ureter – Código genérico para situações como estenose ureteral, hidronefrose sem cálculo, etc., que podem demandar o uso ou a remoção do duplo J.
Além desses, eventualmente podem ser usados:
  • N13.6 – Pionefrose – Infecção obstrutiva com pus no rim;
  • Z46.2 – Encontro para ajuste e retirada de dispositivo de drenagem urinário – Esse código (capítulo Z) é usado para encontros de cuidados específicos com o dispositivo, mas no Brasil não é amplamente adotado para faturamento de procedimentos.

5 Diferença entre CID e código de procedimento (TUSS)

No sistema de saúde brasileiro, a codificação de um atendimento envolve dois campos distintos: o CID (diagnóstico) e o procedimento (código TUSS ou SIGTAP) . Para a retirada do duplo J, existem códigos de procedimento específicos, como:

  • 07.02.06.001-1 – Cateter duplo J (colocação);
  • 04.09.01.015-4 – Extração endoscópica de corpo estranho ou cálculo no ureter, incluindo retirada de duplo J;
  • 04.09.01.005-7 – Cistoscopia para retirada de cateter duplo J (varia conforme a tabela).
Portanto, ao solicitar ou registrar a retirada, o correto é informar: Diagnóstico = CID da condição de base (ou da complicação), Procedimento = código TUSS correspondente à técnica usada. Não se deve substituir o código de procedimento por um CID.

6 Como selecionar o CID correto na prática?

Para escolher o CID adequado, o profissional deve responder:

  1. Qual é o motivo da retirada?
  • Retirada programada, sem complicação: usa-se o CID da condição original (ex.: N20.0 se o stent foi colocado por cálculo renal).
  • Retirada por complicação (incrustação, obstrução, infecção): usa-se o CID da complicação (ex.: T83.0, T83.1).
  • Retirada após fim do tratamento de infecção obstrutiva: N13.6 ou N28.8.
  1. Há mais de um diagnóstico? O CID principal deve refletir o motivo principal do atendimento. Por exemplo, se o paciente está com pielonefrite associada ao stent, o CID principal pode ser T83.1, e o secundário N20.1.
  1. A retirada é isolada ou faz parte de outro procedimento? Se a retirada ocorre durante uma cirurgia para remoção de cálculo, o CID será o do cálculo, e o procedimento será o da cirurgia (que inclui a retirada do stent como ato cirúrgico).
Em resumo, não existe um “CID retirada de duplo J”. O código correto será sempre aquele que melhor descreve a condição clínica que motiva o contato assistencial.

7 Dados relevantes sobre uso e retirada do duplo J

Embora não existam estatísticas nacionais consolidadas exclusivas sobre retirada de duplo J, dados de fontes como a Uroconsult e o Medical Suite Einstein indicam:

  • Aproximadamente 70% a 80% dos pacientes submetidos a cirurgia para cálculo ureteral recebem um cateter duplo J.
  • O tempo médio de permanência é de 7 a 14 dias em casos não complicados; stents de longa duração (meses) são usados em obstruções malignas.
  • A principal complicação é a incrustação (deposição de sais de cálcio), que pode dificultar a retirada e levar a procedimentos mais complexos (cistoscopia com laser).
  • A retirada por fio exteriorizado tem taxa de sucesso >95% quando realizada dentro do prazo recomendado.

Tabela Comparativa: Formas de Retirada do Duplo J

CaracterísticaRetirada por fio exteriorizadoRetirada por cistoscopia
Local de realizaçãoConsultório médicoAmbulatório ou centro cirúrgico
AnestesiaNenhuma (leve desconforto)Anestesia local, sedação ou raquianestesia
Tempo médio do atoMenos de 5 minutos10 a 30 minutos
Custo estimado (SUS)Baixo (sem material endoscópico)Moderado (cistoscópio, pinça, possivelmente laser)
Indicação principalStent com fio exteriorizado, curta permanênciaStent sem fio, incrustado, migrado, longa permanência
Código TUSS frequenteNão há código específico (costuma ser ato incluso na consulta)04.09.01.015-4 (extração endoscópica) ou similar
CID associado mais comumCondição de base (N20.0, N20.1)Condição de base + eventualmente T83.0/T83.1
Risco de complicaçõesMuito baixoBaixo (perfuração, sangramento, infecção)

O Que Todo Mundo Quer Saber

Qual CID usar na retirada de duplo J de rotina, sem complicações?

Nesse caso, o CID deve ser o da condição que motivou a colocação do stent. Por exemplo: se o stent foi colocado após ureterolitotripsia para cálculo ureteral, utilize N20.1 (cálculo do ureter). Se foi por obstrução por tumor, use o CID do tumor correspondente. A retirada programada é um desfecho do tratamento, não uma doença nova.

Existe um CID específico para “retirada de cateter duplo J” na CID-10?

Não. A CID-10 é uma classificação de doenças e causas de morte, não de procedimentos. O ato de retirar o stent é codificado por sistemas de procedimentos (TUSS, SIGTAP, CBHPM). A CID sempre se refere a um diagnóstico ou complicação.

O que significa o código T83 e quando devo usá-lo?

T83 é o capítulo de “Complicações de dispositivos protéticos, implantes e enxertos” na CID-10. Os códigos mais relevantes são T83.0 (complicação mecânica, como obstrução, migração, incrustação) e T83.1 (infecção ou reação inflamatória). Use T83 quando a retirada for motivada por um problema no stent, não pelo fim do tratamento de base.

A retirada do duplo J pode ser faturada sem um CID de diagnóstico?

Não. Todo procedimento na saúde suplementar ou pública exige um CID associado que justifique o ato. O CID deve refletir o motivo clínico do atendimento. Por exemplo, se o paciente está assintomático e retira o stent por término de tratamento, o CID será a condição original. Se há queixa de dor ou infecção, o CID será a complicação.

Qual a diferença entre CID e código de procedimento na retirada do stent?

O CID (Código Internacional de Doenças) descreve a doença ou condição do paciente. O código de procedimento (ex.: TUSS 04.09.01.015-4) descreve o ato médico realizado. Ambos são exigidos em guias de faturamento. Exemplo: CID N20.1 + procedimento 04.09.01.015-4 (retirada endoscópica). Um não substitui o outro.

Ao retirar o duplo J por cistoscopia, preciso informar também o CID da condição de base?

Sim. O CID principal deve ser o diagnóstico que justifica o atendimento. Se a retirada é programada e o paciente não tem queixa atual, use o CID da doença original (ex.: N20.0). Se houver complicação, use o CID da complicação como principal e o da doença original como secundário. A regra geral: escolha o código que melhor descreve o motivo do contato assistencial.

Posso usar o código Z46.2 para retirada de duplo J?

O código Z46.2 (“Encontro para ajuste e retirada de dispositivo de drenagem urinário”) existe na CID-10, mas raramente é aceito como diagnóstico principal no Brasil para faturamento de procedimentos invasivos, pois é considerado um código de “encontro” (capítulo Z) e não reflete uma condição médica. É mais comum utilizar os N20, N28 ou T83. Verifique as regras da operadora de saúde ou do gestor local.

O que fazer se o stent estiver incrustado e a retirada for complexa?

Nesse caso, o diagnóstico principal deve ser T83.0 (complicação mecânica – incrustação). O procedimento será a extração endoscópica com possível uso de litotripsia intracorpórea para fragmentar as incrustações. O CID secundário pode ser N20.0 ou N20.1, se a incrustação ocorreu sobre cálculo residual.

Consideracoes Finais

A expressão “CID retirada de duplo J” é um equívoco comum que decorre da confusão entre classificação de doenças e codificação de procedimentos. Na prática clínica e administrativa, não existe um único CID para a remoção do cateter duplo J. O código correto depende do motivo clínico que levou ao atendimento: pode ser a condição original (cálculo, obstrução), uma complicação do dispositivo (infecção, incrustação) ou outro diagnóstico pertinente.

Para garantir a precisão da documentação e evitar glosas no faturamento, é fundamental que médicos e codificadores diferenciem:

  • O diagnóstico (CID) – que descreve a doença ou condição;
  • O procedimento (código TUSS/SIGTAP) – que descreve a ação médica.
Sempre que possível, registre no prontuário a indicação da colocação do stent, o tempo de permanência, a presença ou ausência de complicações e a técnica de retirada utilizada. Isso facilita a escolha do código adequado e contribui para a qualidade da assistência e a correta remuneração dos serviços.

Recomenda-se consultar as fontes oficiais de codificação, como a tabela unificada do SUS e os manuais da ANS, e, em caso de dúvida, buscar a orientação de um profissional especializado em codificação clínica (auditor, faturamento hospitalar). Dessa forma, a “retirada de duplo J” será registrada de maneira precisa, refletindo a realidade clínica e as boas práticas de gestão em saúde.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu seu caminho num cruzamento pouco habitado: o que une tecnologia e linguagem. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de estrada, tornou-se referência na curadoria de conteúdo digital no Brasil — não por seguir fórmulas, mas por se recusar a tratar como coisas separadas o ato de programar sistemas e o ato de produzir sentido...

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