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Cultura Publicado em Por Stéfano Barcellos

Por que as imagens são cobertas na Quaresma?

Por que as imagens são cobertas na Quaresma?
Atestado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

A Quaresma constitui um dos períodos mais significativos do calendário litúrgico cristão, especialmente na tradição católica. Durante quarenta dias, os fiéis são convidados a um mergulho interior, marcado pela penitência, pelo jejum, pela esmola e pela oração mais intensa. Entre os sinais externos que expressam esse espírito de recolhimento, destaca-se o gesto de cobrir as imagens sacras com véus roxos nas igrejas e capelas. Para muitos observadores, especialmente aqueles que não estão familiarizados com a liturgia, essa prática pode parecer estranha ou até mesmo contraditória: por que ocultar justamente aquilo que habitualmente é venerado e exposto como estímulo à devoção?

A resposta, no entanto, revela uma rica simbolização teológica e pedagógica. Cobrir as imagens não é um ato de desprezo ou de iconoclastia, mas uma linguagem litúrgica que convida a comunidade a vivenciar um tempo de espera, de luto moderado e de preparação para o mistério central da fé cristã: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Este artigo explora as origens, o significado, as variações regionais e as dúvidas mais comuns sobre essa tradição, oferecendo uma visão completa e fundamentada para leitores interessados na espiritualidade quaresmal.

Pontos Importantes

Origens históricas da prática

A tradição de cobrir cruzes e imagens durante a Quaresma não está presente nos primeiros séculos do cristianismo. Os registros históricos indicam que ela se consolidou a partir da Idade Média, especialmente no rito romano. Um dos marcos normativos mais importantes é o Missal Romano promulgado pelo Concílio de Trento (século XVI), que estabeleceu diretrizes para o período quaresmal. No entanto, a prática já era observada em algumas regiões da Europa desde o século V, associada ao chamado “tempo da paixão”, que começa no quinto domingo da Quaresma (antigamente chamado de Domingo da Paixão).

O costume ganhou contornos mais precisos com a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), em seu número 93, menciona que as cruzes e as imagens podem ser cobertas desde o quinto domingo da Quaresma até a Vigília Pascal, conforme a decisão da conferência episcopal local. Essa flexibilidade explica por que, em algumas dioceses, as imagens permanecem visíveis até a Semana Santa, enquanto em outras são cobertas já no início da Quaresma ou apenas a partir do quinto domingo.

Sentido teológico e simbólico

O véu roxo que encobre as imagens não é um mero ornamento decorativo, mas carrega um significado profundo. A cor roxa, tradicionalmente associada à penitência e ao luto na liturgia católica, sinaliza o caráter sóbrio e introspectivo da Quaresma. Ao esconder as representações de santos, anjos e do próprio Cristo crucificado ou ressuscitado, a Igreja deseja conduzir os fiéis a um estado de “privação” sensorial que favorece a interiorização.

Três dimensões teológicas principais podem ser destacadas:

  1. Penitência e despojamento: Assim como os fiéis são chamados a renunciar a certos confortos materiais (jejum, abstinência), a Igreja também se despe de seus ornamentos visuais mais expressivos. O véu lembra que, durante a Quaresma, a glória plena de Cristo ainda está velada, pois caminhamos com Ele em direção à cruz.
  1. Preparação para a Páscoa: A ocultação das imagens cria um clima de expectativa. Quando os véus são retirados na Vigília Pascal, o gesto adquire um impacto renovado: as imagens “reaparecem” como símbolo da ressurreição e da vitória sobre a morte. A ausência temporária potencializa a alegria do encontro.
  1. Recolhimento e foco no essencial: Sem a distração das representações visuais, o fiel é convidado a voltar-se para o interior, para a Palavra de Deus proclamada na liturgia e para o mistério eucarístico. O silêncio visual ajuda a concentrar a atenção na Paixão de Cristo, que será celebrada solenemente na Semana Santa.

Normas litúrgicas vigentes

A regulamentação atual encontra-se no Missal Romano (3ª edição típica, 2002) e nos documentos da Congregação para o Culto Divino. O parágrafo 93 da IGMR estabelece:

> “A cruz e as imagens podem ser cobertas desde o quinto domingo da Quaresma até a Vigília Pascal, conforme a determinação da Conferência Episcopal.”

Isso significa que não é obrigatório cobrir todas as imagens e que a prática pode variar de país para país. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tradicionalmente recomenda a cobertura das cruzes e imagens a partir do quinto domingo da Quaresma (chamado de “Domingo da Paixão”) até o início da Vigília Pascal. Já em outros países, como a Itália, é comum que as imagens sejam cobertas já no primeiro domingo da Quaresma.

Uma informação relevante: as cruzes que estão no altar ou nas laterais podem ser cobertas, mas a cruz processional (utilizada nas procissões) geralmente permanece descoberta, assim como o crucifixo principal da igreja, que em algumas dioceses só é velado na Sexta-feira Santa. Ainda assim, cada comunidade pode adaptar a prática conforme sua tradição local, desde que respeite a orientação geral.

Variações regionais e históricas

Ao longo dos séculos, a prática de cobrir imagens assumiu formas diferentes. Na tradição bizantina, por exemplo, as imagens não são cobertas, mas os ícones são retirados do templo ou virados contra a parede durante a Grande Quaresma, simbolizando a ausência de Deus na escuridão do pecado. Já no rito ambrosiano (utilizado na Arquidiocese de Milão), as cruzes são cobertas apenas na Quinta-feira Santa.

Outra variação diz respeito ao tipo de véu. Embora a cor oficial seja o roxo, em algumas regiões utiliza-se o preto, especialmente a partir do Domingo de Ramos, como sinal de luto mais intenso. Há ainda comunidades que mantêm o véu branco na Quinta-feira Santa, simbolizando a instituição da Eucaristia, antes do luto da Sexta-feira Santa.

Essa diversidade enriquece o patrimônio litúrgico, demonstrando que a Igreja não impõe um uniformismo rígido, mas valoriza as expressões culturais e espirituais de cada povo.

Uma lista: 5 motivos simbólicos para cobrir as imagens na Quaresma

  1. Expressão de luto litúrgico: O véu roxo ou preto sinaliza que a Igreja está em um período de recolhimento e penitência, em solidariedade com o sofrimento de Cristo.
  1. Antecipação da Paixão: Ao ocultar a imagem gloriosa dos santos e do Senhor, a comunidade é convidada a concentrar-se no caminho doloroso que leva à cruz.
  1. Foco na Palavra e na Eucaristia: Sem o apelo visual das imagens, a liturgia da Palavra e a mesa eucarística assumem ainda mais centralidade.
  1. Pedagogia do despojamento: A prática ensina, de forma concreta, que o cristão deve “esvaziar-se” de si mesmo para se encher de Deus (cf. Filipenses 2,5-8).
  1. Ressignificação da ressurreição: A retirada dos véus na Vigília Pascal torna-se um gesto festivo e impactante, que ressalta a vitória da luz sobre as trevas.

Uma tabela comparativa: Datas e tipos de cobertura em diferentes tradições

Tradição / RitoInício da coberturaFim da coberturaCor do véuObservações
Rito Romano (Brasil)5º domingo da QuaresmaVigília PascalRoxoCruzes e imagens cobertas; algumas dioceses cobrem apenas as cruzes.
Rito Romano (Itália)1º domingo da QuaresmaVigília PascalRoxo (ou preto)Prática mais difundida, especialmente no norte.
Rito Ambrosiano (Milão)Quinta-feira SantaVigília PascalPreto ou roxo escuroCruzes cobertas; imagens geralmente permanecem descobertas.
Rito BizantinoNão há coberturaNão se aplicaNão se aplicaÍcones são retirados ou virados; uso de cortinas no iconostásio.
Tradição Anglicana (alta igreja)5º domingo da QuaresmaVigília PascalRoxoSegue de perto o rito romano, mas com variações locais.
Igrejas de rito moçárabe (Espanha)4º domingo da QuaresmaSábado SantoPretoInfluência visigótica; imagens cobertas com panos negros.
Fonte: Compilação baseada no Cerimonial dos Bispos (1984) e no Missal Romano.

Esclarecimentos

Por que as imagens são cobertas com véu roxo e não com outra cor?

O roxo é a cor litúrgica da penitência, do luto e do recolhimento na tradição católica. Durante a Quaresma e o Advento, essa cor predomina nos paramentos e alfaias. O uso do véu roxo para cobrir as imagens reforça o clima de preparação espiritual. Em algumas comunidades, especialmente na Semana Santa, adota-se o preto como sinal de luto mais intenso pela Paixão de Cristo, mas o roxo continua sendo a cor padrão indicada pelo Missal Romano.

A prática de cobrir imagens é obrigatória em todas as igrejas católicas?

Não. A Instrução Geral do Missal Romano (nº 93) estabelece que a cobertura das cruzes e imagens pode ser feita “conforme a determinação da Conferência Episcopal” local. Isso significa que cada país ou diocese decide se adota a prática, quando começa e quando termina. No Brasil, a CNBB recomenda a cobertura a partir do quinto domingo da Quaresma, mas há paróquias que seguem costumes diferentes. O importante é que, onde a prática é adotada, ela seja coerente com o espírito quaresmal.

As imagens cobertas incluem todos os santos e o crucifixo?

Tradicionalmente, cobrem-se cruzes e imagens de santos que estão expostas na igreja para veneração pública. O crucifixo (a imagem de Cristo crucificado) também é coberto, embora em algumas dioceses ele permaneça descoberto até a Sexta-feira Santa, quando então é velado ou retirado do altar. Já as imagens que fazem parte da estrutura arquitetônica (pinturas murais, mosaicos fixos) geralmente não são cobertas, pois não podem ser facilmente veladas. A decisão final cabe à autoridade local.

A Bíblia menciona algo sobre cobrir imagens durante a Quaresma?

Não. A prática não tem base bíblica direta. Ela é uma tradição litúrgica que se desenvolveu ao longo dos séculos, inspirada por princípios teológicos como o despojamento (cf. Fl 2,7) e a preparação para a Páscoa. A Igreja Católica entende que a liturgia pode criar símbolos e gestos que ajudam a transmitir a fé, desde que não contradigam a Escritura ou a doutrina. Portanto, o costume é legítimo, mas não obrigatório por mandamento divino.

O que devo fazer se minha paróquia não cobre as imagens? Posso cobri-las em minha casa?

Se a prática não é adotada em sua paróquia, não há problema em seguir o costume local, pois ele é orientado pela autoridade eclesiástica. Em casa, alguns fiéis optam por cobrir imagens devocionais como forma de vivenciar a Quaresma em família. Não há regras rígidas para o âmbito doméstico; o importante é que o gesto seja feito com intenção espiritual. Você pode usar um pano roxo simples e retirá-lo na Vigília Pascal. Se preferir, pode também não fazê-lo, pois não é obrigatório.

Quando exatamente os véus são retirados? Posso ver as imagens descobertas antes da Páscoa?

Os véus são retirados durante a celebração da Vigília Pascal, que ocorre na noite do Sábado Santo, após a proclamação da ressurreição. Em algumas tradições, a retirada acontece no início da mesma vigília, após a bênção do fogo novo e do círio pascal. Até aquele momento, as imagens permanecem cobertas. Portanto, quem participar da missa da Vigília Pascal testemunhará o momento simbólico do “desvelamento”, que anuncia a alegria da Páscoa. Em nenhuma hipótese as imagens devem ser descobertas antes, a menos que haja uma razão pastoral excepcional autorizada pelo pároco.

A prática de cobrir imagens é uma forma de iconoclastia? Ela nega a veneração aos santos?

De forma alguma. A iconoclastia (destruição ou rejeição de imagens religiosas) é condenada pela Igreja Católica, que desde o Segundo Concílio de Niceia (787) defende a veneração das imagens como expressão da encarnação de Cristo e da comunhão dos santos. Cobrir temporariamente as imagens não é negar sua importância, mas sim criar um contraste que realça o mistério pascal. A prática é um instrumento pedagógico, não uma negação da teologia das imagens.

Qual a diferença entre cobrir imagens e retirar flores ou outros ornamentos na Quaresma?

Ambas as práticas fazem parte do mesmo espírito de austeridade quaresmal. A retirada de flores, a supressão do Glória e do Aleluia, o uso de paramentos roxos e a cobertura das imagens são elementos que convergem para criar um ambiente litúrgico de penitência e recolhimento. Enquanto a retirada de flores e ornamentos suprime o colorido festivo, a cobertura das imagens acrescenta um elemento de “velamento” que remete ao mistério escondido da Paixão. Juntas, essas práticas preparam a comunidade para a explosão de luz e cores da Páscoa.

Resumo Final

A tradição de cobrir imagens durante a Quaresma é muito mais do que um mero adorno litúrgico. Ela constitui um gesto carregado de significado teológico e pedagógico, que convida os fiéis a uma experiência mais profunda do mistério pascal. Ao esconder o que normalmente se vê, a Igreja ensina que nem tudo está revelado, que há um tempo de espera e de despojamento necessário para que a alegria da ressurreição brilhe com todo o seu esplendor.

A prática, que varia em suas formas conforme as regiões e as tradições, segue viva em muitas comunidades ao redor do mundo. Ela não representa um legalismo vazio, mas uma linguagem que o corpo e a alma entendem: o véu que cobre as imagens é o mesmo que, na Vigília Pascal, se rasga para dar lugar à luz. Para o cristão, esse movimento de ocultação e revelação espelha a própria dinâmica da salvação: a cruz precede a glória, a morte precede a vida.

Que este artigo possa ajudar o leitor a compreender e valorizar esse símbolo quaresmal, redescobrindo nele um convite à interioridade e à preparação para a maior festa do calendário cristão. Ao olhar para uma imagem coberta, que o coração se abra para o mistério do amor de Deus que se entrega por amor.

Para Saber Mais

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu seu caminho num cruzamento pouco habitado: o que une tecnologia e linguagem. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de estrada, tornou-se referência na curadoria de conteúdo digital no Brasil — não por seguir fórmulas, mas por se recusar a tratar como coisas separadas o ato de programar sistemas e o ato de produzir sentido...

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