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Cultura Publicado em Por Stéfano Barcellos

Os 72 Demônios de Salomão: Guia Completo

Os 72 Demônios de Salomão: Guia Completo
Avaliado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

A figura do rei Salomão, conhecido nas tradições bíblicas por sua sabedoria e riqueza, também ocupa um lugar central no imaginário ocultista ocidental. No centro desse legado esotérico está um grimório que, há séculos, fascina estudiosos, praticantes de magia e curiosos: (ou ). Sua primeira parte, a , contém uma lista de 72 entidades espirituais — comumente chamadas de demônios, espíritos ou daemons — que supostamente foram invocadas, aprisionadas e comandadas pelo rei sábio.

Embora não haja qualquer evidência histórica de que Salomão tenha realmente realizado tais práticas, o catálogo dos 72 demônios tornou-se um dos documentos mais influentes da demonologia europeia e do ocultismo moderno. De YouTube a fóruns esotéricos, de edições ilustradas a debates acadêmicos sobre história das religiões, a Goetia permanece viva como referência cultural e mágica. Este artigo oferece uma visão completa sobre o tema: sua origem textual, a lista das entidades, características, variações, perguntas frequentes e as principais fontes de pesquisa. O objetivo é fornecer um guia informativo, crítico e acessível para quem deseja compreender esse fascinante capítulo da história do ocultismo.

Visao Detalhada

1. O que é a Ars Goetia?

A (do grego , "feitiçaria" ou "invocação") é a primeira das cinco seções do grimório , compilado provavelmente entre os séculos XVI e XVII, embora seu conteúdo remonte a tradições medievais e renascentistas. O manuscrito mais antigo conhecido data do século XVII, atualmente preservado na Biblioteca Britânica. A obra se apresenta como um manual prático de magia cerimonial, ensinando o mago a invocar, controlar e obter favores de 72 espíritos.

Cada espírito é descrito com:

  • Nome (muitas vezes derivado de divindades antigas, anjos ou demônios de outras culturas);
  • Título hierárquico (Rei, Duque, Marquês, Conde, Presidente, Príncipe, etc.);
  • Número de legiões de servos que ele comanda;
  • Aparência descrita em termos muitas vezes grotescos ou fantásticos;
  • Poderes ou funções (ensinar artes, revelar tesouros, causar ou curar doenças, etc.);
  • Sigilo ou selo — um desenho geométrico a ser utilizado nos rituais de invocação.
A obra atribui a autoria ao rei Salomão, que teria invocado e aprisionado esses espíritos em um vaso de bronze selado com seu selo mágico. Mais tarde, os espíritos teriam sido libertados por Babilônios ou por sacerdotes egípcios, originando a tradição. Essa narrativa, porém, é uma lenda sem respaldo histórico — estudiosos modernos apontam influências da demonologia cristã medieval, da Cabala, da astrologia e de grimórios anteriores, como o (do século I d.C.) e o .

2. Contexto histórico e variações

A lista dos 72 demônios não é fixa. Diferentes manuscritos e edições impressas apresentam variações nos nomes, na ordem e nas atribuições. A versão mais difundida atualmente é a editada por Samuel Liddell MacGregor Mathers e Aleister Crowley no final do século XIX, publicada como . Essa edição influenciou profundamente o ocultismo moderno, a Wicca, a magia cerimonial e a cultura pop.

Entre as variações notáveis:

  • Alguns espíritos têm nomes que lembram divindades pagãs (Bael, Amon, Astaroth);
  • Outros aparecem como demônios cristãos (Belial, Asmodeu, Lúcifer — embora Lúcifer não conste na lista padrão);
  • A hierarquia e os números de legiões mudam conforme o manuscrito.
Além disso, interpretações esotéricas modernas associam os 72 espíritos a constelações, signos zodiacais, na cabala às 72 letras do (o Nome Inefável de Deus), ou aos 72 anjos da tradição judaica. No entanto, essas associações são posteriores e não fazem parte do núcleo textual original.

3. Visão acadêmica versus visão esotérica

Do ponto de vista acadêmico, a é um produto da história cultural: um grimório que reflete sincretismos religiosos, crenças populares e tentativas de controle espiritual. Os demônios são vistos como construções simbólicas, não como entidades reais. Já para praticantes de ocultismo, os 72 espíritos são forças psíquicas ou espirituais com as quais se pode interagir ritualisticamente, seja para autoconhecimento, seja para obter resultados materiais. Essa dualidade mantém o tema relevante tanto para o estudo acadêmico quanto para a prática esotérica contemporânea.

Lista dos 72 Demônios da Ars Goetia (versão de Mathers/Crowley)

A seguir, apresentamos os nomes dos 72 espíritos conforme a edição mais conhecida. Cada nome vem acompanhado de seu título hierárquico. As descrições detalhadas são extensas e variam de fonte para fonte; aqui fornecemos uma referência resumida.

  1. Bael – Rei, comanda 66 legiões. Assume formas de um gato, sapo ou homem, ou todas as três.
  2. Agares – Duque, comanda 31 legiões. Aparece como um homem velho montado em um crocodilo.
  3. Vassago – Príncipe, comanda 26 legiões. Diz-se que revela o passado e o futuro.
  4. Samigina (Gamigin) – Marquês, comanda 30 legiões. Assume forma de cavalo pequeno.
  5. Marbas – Presidente, comanda 36 legiões. Aparece como um leão poderoso.
  6. Valefor – Duque, comanda 10 legiões. Assume forma de leão com cabeça de ladrão.
  7. Amon – Marquês, comanda 40 legiões. Aparece como lobo com cauda de serpente.
  8. Barbatos – Duque, comanda 30 legiões. Revela tesouros ocultos.
  9. Paimon – Rei, comanda 200 legiões. Um dos chefes principais.
  10. Buer – Presidente, comanda 50 legiões. Ensina filosofia e ervas medicinais.
  11. Gusion – Duque, comanda 40 legiões. Conhece o passado, presente e futuro.
  12. Sitri – Príncipe, comanda 60 legiões. Provoca amor e atração.
  13. Beleth – Rei, comanda 85 legiões. Causa amor entre homens e mulheres.
  14. Leraje – Marquês, comanda 30 legiões. Causa feridas e batalhas.
  15. Eligos – Duque, comanda 60 legiões. Revela segredos e inspira guerras.
  16. Zepar – Duque, comanda 26 legiões. Causa amor e paixão.
  17. Botis – Presidente e Conde, comanda 60 legiões. Reconciliadores e amigos.
  18. Bathin – Duque, comanda 30 legiões. Conhece ervas e pedras preciosas.
  19. Sallos – Duque, comanda 30 legiões. Causa amor.
  20. Purson – Rei, comanda 22 legiões. Revela tesouros e segredos.
  21. Morax – Conde e Presidente, comanda 30 legiões. Ensina astronomia.
  22. Ipos – Conde e Príncipe, comanda 36 legiões. Inspira coragem.
  23. Aim – Duque, comanda 26 legiões. Incendeia cidades.
  24. Naberius – Marquês, comanda 19 legiões. Restaura honra e dignidade.
  25. Glasya-Labolas – Conde e Presidente, comanda 36 legiões. Ensina artes.
  26. Bune – Duque, comanda 30 legiões. Enobrece e torna eloquente.
  27. Ronové – Marquês, comanda 19 legiões. Ensina retórica.
  28. Berith – Duque, comanda 26 legiões. Alquimista.
  29. Astaroth – Duque, comanda 40 legiões. Revela segredos do passado.
  30. Forneus – Marquês, comanda 29 legiões. Ensina artes e idiomas.
  31. Foras – Presidente, comanda 29 legiões. Restaura perdas.
  32. Asmodeus – Rei, comanda 72 legiões. Causa luxúria e jogos.
  33. Gaap – Príncipe, comanda 66 legiões. Inspira amor e revela segredos.
  34. Furfur – Conde, comanda 26 legiões. Causa amor e tempestades.
  35. Marchosias – Marquês, comanda 30 legiões. Guerreiro.
  36. Stolas – Príncipe, comanda 26 legiões. Ensina astronomia e botânica.
  37. Phenex – Marquês, comanda 20 legiões. Poeta e músico.
  38. Halphas – Conde, comanda 26 legiões. Constrói fortalezas.
  39. Malphas – Presidente, comanda 40 legiões. Constrói casas e torres.
  40. Raum – Conde, comanda 30 legiões. Destrói cidades.
  41. Focalor – Duque, comanda 30 legiões. Afoga pessoas e controla mares.
  42. Vepar – Duque, comanda 29 legiões. Guia navios.
  43. Sabnock – Marquês, comanda 50 legiões. Constrói fortalezas e torres.
  44. Shax – Marquês, comanda 30 legiões. Rouba e cega.
  45. Vine – Conde e Rei, comanda 36 legiões. Revela bruxas e segredos.
  46. Bifrons – Conde, comanda 26 legiões. Ensina astrologia.
  47. Uvall – Duque, comanda 36 legiões. Revela segredos.
  48. Haagenti – Presidente, comanda 33 legiões. Transforma metais.
  49. Crocell – Duque, comanda 48 legiões. Ensina geometria.
  50. Furcas – Cavaleiro, comanda 20 legiões. Ensina filosofia.
  51. Balam – Rei, comanda 40 legiões. Assume forma de urso.
  52. Alloces – Duque, comanda 36 legiões. Ensina astronomia.
  53. Caim – Presidente, comanda 30 legiões. Assume forma de tordo.
  54. Murmur – Duque e Conde, comanda 30 legiões. Toca trombeta.
  55. Orobas – Príncipe, comanda 20 legiões. Revela segredos.
  56. Gremory – Duque, comanda 26 legiões. Revela tesouros.
  57. Ose – Presidente, comanda 30 legiões. Transforma pessoas.
  58. Amy – Presidente, comanda 36 legiões. Ensina astrologia.
  59. Orias – Marquês, comanda 30 legiões. Ensina astrologia.
  60. Vapula – Duque, comanda 36 legiões. Ensina filosofia.
  61. Zagan – Rei e Presidente, comanda 33 legiões. Transforma metais.
  62. Valac – Presidente, comanda 38 legiões. Revela tesouros.
  63. Andras – Marquês, comanda 30 legiões. Semeador de discórdia.
  64. Flauros – Duque, comanda 20 legiões. Conhece o futuro.
  65. Andrealphus – Marquês, comanda 30 legiões. Ensina geometria.
  66. Cimeies – Marquês, comanda 20 legiões. Ensina artes.
  67. Amdusias – Duque, comanda 29 legiões. Cria música harmoniosa.
  68. Belial – Rei, comanda 80 legiões. Distribui títulos e favores.
  69. Decarabia – Marquês, comanda 30 legiões. Assume forma de estrela.
  70. Seere – Príncipe, comanda 26 legiões. Conhece o passado e futuro.
  71. Dantalion – Duque, comanda 36 legiões. Lê pensamentos.
  72. Andromalius – Conde, comanda 36 legiões. Recupera objetos perdidos.
A ordem e os títulos podem variar em outras edições e manuscritos.

Tabela comparativa de alguns demônios notáveis

A tabela a seguir compara cinco dos espíritos mais citados, com base na versão padrão do .

NomeTítuloNº de LegiõesPoderes principaisAparência típica
BaelRei66Torna invisível, concede sabedoria, domina outros espíritosGato, sapo, homem ou combinações
AmonMarquês40Concilia amigos, revela o passado/futuroLobo com cauda de serpente
AstarothDuque40Revela segredos do passado, ensina artes liberaisAnjo negro montado em dragão
AsmodeusRei72Causa luxúria, jogos, revela tesourosTrês cabeças (humana, touro, carneiro)
BelialRei80Distribui títulos, favores, inspira discórdiaDois anjos em uma carruagem de fogo
A tabela ilustra a diversidade hierárquica e funcional dos espíritos, bem como a falta de padronização absoluta entre as fontes.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é exatamente a Ars Goetia?

A Ars Goetia é a primeira seção do grimório "A Chave Menor de Salomão". Trata-se de um manual de magia cerimonial que descreve 72 espíritos e instrui sobre como invocá-los, controlá-los e obter deles favores. Embora atribuída ao rei Salomão, a obra foi compilada nos séculos XVI-XVII e é produto da tradição ocultista europeia.

O rei Salomão realmente invocou esses demônios?

Não. Não há nenhuma evidência histórica, arqueológica ou textual confiável de que Salomão tenha realizado tais práticas. A associação com ele é uma ficção literária dos grimórios, que buscavam autoridade lendária. A figura histórica de Salomão, como descrita na Bíblia, não se envolveu com demonologia.

Os 72 demônios são anjos caídos?

Na tradição cristã medieval, muitos demônios eram vistos como anjos decaídos. Porém, a Ars Goetia não faz essa distinção de forma explícita, tratando os espíritos como entidades pré-existentes que podem ser comandadas. Alguns nomes (como Asmodeus) aparecem em textos bíblicos e apócrifos como demônios, enquanto outros são derivados de divindades pagãs.

Por que o número 72? Qual é o significado?

O número 72 é simbólico e recorrente em várias tradições: 72 nações da Terra segundo a Bíblia, 72 anciãos do Sinédrio, 72 letras do Shem HaMephorash (Nome Inefável de Deus na Cabala), 72 graus do zodíaco (5° por signo). A escolha provavelmente reflete essa simbologia, não uma contagem exata de espíritos históricos.

É perigoso tentar invocar esses espíritos?

Do ponto de vista esotérico, a prática exige preparo, conhecimento e proteção ritualística; muitos ocultistas alertam para riscos psicológicos e espirituais. Do ponto de vista acadêmico e cético, a invocação não tem efeito real além de possíveis efeitos sugestivos. Em qualquer caso, a recomendação geral é de extrema cautela e estudo aprofundado antes de qualquer tentativa.

Onde posso encontrar a lista completa e os sigilos?

Diversas edições do Lemegeton estão disponíveis online, incluindo no Internet Archive, em blogs especializados e na Wikipedia. Links confiáveis estão listados na seção de referências deste artigo. É importante comparar diferentes fontes, pois há variações nos nomes e sigilos entre manuscritos.

O Que Fica

Os 72 demônios de Salomão constituem um dos legados mais duradouros e controversos do ocultismo ocidental. Nascidos de uma tradição de grimórios medievais e renascentistas, eles transcendem o mero catálogo de entidades para se tornarem um fenômeno cultural multifacetado. Para o historiador, são uma janela para as crenças, sincretismos e medos de épocas passadas. Para o praticante esotérico, são ferramentas de autoconhecimento e transformação simbólica. Para o público em geral, são objetos de fascínio que povoam filmes, jogos e literatura fantástica.

Compreender a origem textual, as variações e o contexto histórico desses 72 espíritos é essencial para evitar interpretações simplistas ou sensacionalistas. O tema nos lembra como as narrativas lendárias podem ganhar vida própria e influenciar gerações, mesmo sem lastro histórico verificável. Seja como estudo acadêmico, seja como prática espiritual, a Goetia permanece um convite à reflexão sobre os limites entre conhecimento, crença e imaginação humana.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu seu caminho num cruzamento pouco habitado: o que une tecnologia e linguagem. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de estrada, tornou-se referência na curadoria de conteúdo digital no Brasil — não por seguir fórmulas, mas por se recusar a tratar como coisas separadas o ato de programar sistemas e o ato de produzir sentido...

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