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Educação Publicado em Por Stéfano Barcellos

Como Fazer um Genograma: Guia Prático e Fácil

Como Fazer um Genograma: Guia Prático e Fácil
Chancelado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Contextualizando o Tema

Compreender a dinâmica familiar vai muito além de simplesmente listar nomes e datas de nascimento. Na prática clínica e terapêutica, o genograma surge como uma ferramenta poderosa para mapear, de forma visual e sistemática, as relações, os padrões de saúde e os eventos marcantes que perpassam gerações. Diferentemente de uma árvore genealógica tradicional, que se limita a registrar parentescos, o genograma incorpora informações sobre vínculos afetivos, conflitos, doenças hereditárias e comportamentos recorrentes, permitindo uma leitura mais profunda do sistema familiar.

Desenvolvido inicialmente pelo terapeuta familiar Murray Bowen na década de 1970, o genograma tornou-se instrumento essencial em áreas como psicologia, medicina de família, serviço social, enfermagem e terapia sistêmica. Sua aplicação auxilia profissionais a identificar fatores de risco, compreender a transmissão de padrões e planejar intervenções mais eficazes. Com o avanço da tecnologia, hoje é possível construir genogramas de forma colaborativa e remota, utilizando plataformas digitais que facilitam a edição e o compartilhamento.

Este guia prático apresenta um passo a passo completo para criar seu próprio genograma, desde a coleta de informações até a interpretação dos padrões identificados. Ao final, você encontrará uma tabela de símbolos padronizados, uma lista de boas práticas, perguntas frequentes e referências confiáveis para aprofundar seus conhecimentos.

Aspectos Essenciais

O que é um genograma e para que serve

Um genograma é um diagrama que representa a estrutura familiar de um indivíduo, geralmente abrangendo três ou mais gerações, e que inclui informações relacionais e de saúde entre os membros. Ele difere de uma simples árvore genealógica porque registra dados como:

  • Tipo e qualidade das relações (próximas, conflituosas, distantes)
  • Doenças hereditárias, transtornos mentais, uso de substâncias
  • Eventos significativos (migrações, traumas, perdas, divórcios, adoções)
  • Padrões repetitivos de comportamento (casamentos precoces, abandono, violência)
Essas informações são organizadas por meio de símbolos padronizados (quadrados, círculos, linhas) que tornam a leitura rápida e universal. Por isso, o genograma é amplamente utilizado em contextos de atenção primária à saúde, terapia familiar, orientação vocacional e perícia social.

Passo a passo para criar um genograma

A construção de um genograma exige planejamento e sensibilidade para abordar temas familiares que podem ser delicados. Siga as etapas abaixo.

1. Defina o objetivo

Antes de começar, pergunte-se: qual é a finalidade deste genograma? Os objetivos mais comuns incluem:

  • Mapear histórico de doenças hereditárias (câncer, diabetes, cardiopatias)
  • Compreender padrões de conflito ou aliança na família
  • Avaliar a rede de apoio social disponível
  • Identificar eventos traumáticos transgeracionais
Ter um objetivo claro orienta a coleta de dados e evita informações desnecessárias.

2. Colete informações de forma estruturada

Converse com o paciente ou cliente e, quando possível, com outros familiares. As informações essenciais são:

  • Dados demográficos: nome completo, sexo, idade, data de nascimento (e óbito, se for o caso)
  • Relacionamentos: casamentos, uniões estáveis, separações, divórcios, viúvez
  • Filhos: ordem de nascimento, gêmeos, adoções, abortos espontâneos ou induzidos
  • Saúde: doenças crônicas, transtornos mentais, deficiências, causas de morte
  • Hábitos: tabagismo, alcoolismo, uso de drogas
  • Eventos marcantes: migrações, acidentes, traumas, perdas significativas
Para proteger dados sensíveis, sempre obtenha consentimento informado e garanta o anonimato quando necessário.

3. Utilize símbolos padronizados

A padronização é fundamental para que qualquer profissional entenda o diagrama. Os símbolos mais usados estão listados na tabela a seguir.

Tabela de símbolos básicos do genograma
SímboloRepresentaçãoSignificado
QuadradoHomemIndivíduo do sexo masculino
CírculoMulherIndivíduo do sexo feminino
TriânguloSexo desconhecidoUsado quando o sexo não é informado
Linha horizontal contínuaUnião / casamentoConecta cônjuges
Linha horizontal tracejadaUnião informalRelacionamento sem vínculo legal
Duas barras paralelas na linhaSeparação / divórcioInterrupção da união
Linha vertical contínuaDescendênciaConecta pais a filhos
Linha vertical tracejadaAdoçãoVínculo não biológico
Símbolo com XFalecimentoMarca óbito (com data, se possível)
Linha onduladaRelação conflituosaConflito contínuo entre duas pessoas
Linha dupla (paralela)Relação muito próximaVínculo afetivo intenso
Linha pontilhadaRelação distanteContato raro ou rompimento
Além desses, muitos profissionais utilizam cores para indicar condições de saúde (por exemplo, vermelho para doenças cardíacas, azul para transtornos de humor). O importante é manter uma legenda clara.

4. Organize por gerações

Comece pelo indivíduo-alvo (paciente ou cliente), posicionando-o no centro ou na geração mais recente. Em seguida, inclua:

  • Geração dos pais (pai, mãe, tios e tias)
  • Geração dos avós (avós paternos e maternos)
  • Geração dos filhos (quando houver)
Caso existam informações relevantes sobre bisavós ou primos distantes, eles podem ser adicionados, mas o mínimo recomendado são três gerações.

5. Registre as relações emocionais

Este é o diferencial do genograma. Desenhe linhas especiais entre os membros para indicar a qualidade do vínculo:

  • Linha ondulada: conflito intenso
  • Linha dupla paralela: proximidade afetiva (aliados)
  • Linha pontilhada: distanciamento ou rompimento
  • Linha com seta dupla: relação de cuidado ou dependência
Essas informações ajudam a identificar alianças, triangulações e padrões disfuncionais.

6. Analise padrões transgeracionais

Depois de diagramar, procure repetições que possam indicar questões sistêmicas:

  • Doenças que se repetem em várias gerações (câncer de mama, hipertensão, diabetes)
  • Padrões de relacionamento (divórcios, viuvez precoce, abandono)
  • Eventos traumáticos em idades semelhantes
  • Concentração de transtornos mentais ou dependência química
A análise deve ser feita com cautela, evitando determinismos. O genograma é uma ferramenta de hipóteses, não de certezas absolutas.

Uma lista: boas práticas para construir genogramas confiáveis

  • Confirme os dados com mais de uma fonte sempre que possível, especialmente informações médicas.
  • Utilize ferramentas digitais (Canva, Lucidchart, Miro, GenoPro) para facilitar revisões e compartilhamento.
  • Proteja informações sensíveis mantendo o genograma em local seguro e usando códigos ou nomes fictícios quando apresentado publicamente.
  • Atualize o genograma regularmente, pois eventos como nascimentos, mortes, casamentos e diagnósticos alteram o cenário.
  • Inclua uma legenda com todos os símbolos e cores utilizados, para que terceiros possam interpretar sem dificuldade.
  • Respeite o sigilo ético-profissional, especialmente quando o genograma for usado em contexto clínico ou jurídico.

Ferramentas digitais populares

Atualmente, existem diversas plataformas que tornam a criação de genogramas mais ágil e colaborativa. Abaixo, uma comparação breve:

FerramentaPrincipais característicasIdeal para
CanvaModelos prontos, arrastar e soltar, exportação em PNG/PDFCriação visual rápida e apresentações
LucidchartDiagramas editáveis, colaboração em tempo real, integração com Google DriveUso profissional e trabalho em equipe
MiroQuadro infinito, colaboração remota, templates gratuitosSessões de terapia online e brainstorming
GenoProSoftware especializado, símbolos médicos, geração de relatóriosContexto clínico e pesquisa acadêmica
VenngageModelos prontos, ênfase em infográficos, exportação HDMaterial educativo e apresentações institucionais
A escolha depende da necessidade: para um uso terapêutico isolado, o GenoPro ou Lucidchart são excelentes; para um projeto de sala de aula, o Canva ou Venngage bastam.

FAQ Rapido

Qual a diferença entre genograma e árvore genealógica?

Enquanto a árvore genealógica registra nomes, datas e parentescos, o genograma vai além: ele inclui informações sobre relacionamentos afetivos (proximidade, conflito), condições de saúde (doenças hereditárias, transtornos mentais) e eventos marcantes (divórcios, migrações, traumas). O genograma é uma ferramenta analítica, usada principalmente por profissionais de saúde e terapia, enquanto a árvore genealógica tem caráter mais histórico e genealógico.

Quantas gerações devo incluir em um genograma?

A recomendação padrão é de, no mínimo, três gerações: a do indivíduo-alvo, a de seus pais e a de seus avós. Quando relevante, podem ser incluídas gerações anteriores (bisavós) ou laterais (tios, primos). O importante é que haja profundidade suficiente para identificar padrões transgeracionais sem tornar o diagrama excessivamente complexo.

Posso fazer um genograma online e sem pagar?

Sim. Ferramentas como Canva, Miro e Venngage oferecem versões gratuitas com modelos prontos para genograma. O Lucidchart também possui um plano básico gratuito com funcionalidades suficientes para a maioria dos usuários. Para uso clínico mais avançado, softwares como GenoPro exigem licença paga.

Quais símbolos são mais importantes para começar?

Os símbolos fundamentais são: quadrado (homem), círculo (mulher), linha horizontal (união), linha vertical (descendência) e o X para falecimento. A partir desses, você pode adicionar variações: linha tracejada para união informal, duas barras paralelas para separação/divórcio, e linhas onduladas ou duplas para relações emocionais. Recomenda-se consultar uma legenda padronizada, como a do manual da Nescon/UFMG.

Genograma é usado apenas por psicólogos e médicos?

Não. Embora sejam os principais usuários, o genograma também é empregado por assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, orientadores educacionais e até por genealogistas que desejam incluir dados de saúde e relações nos seus estudos. Em contextos de mediação familiar e perícia judicial, o genograma ajuda a mapear vínculos e históricos de conflito.

Como devo proceder se um familiar se recusar a fornecer informações?

Respeite a recusa. O genograma deve ser construído com base no que o paciente/cliente sabe ou está disposto a compartilhar. Se houver lacunas, indique-as no diagrama (com um ponto de interrogação ou legenda). Em contextos clínicos, a falta de dados sobre um parente pode, por si só, ser um dado relevante sobre o grau de distanciamento ou segredo familiar.

É necessário ter treinamento formal para interpretar um genograma?

Embora qualquer pessoa possa desenhar um genograma, a interpretação dos padrões – especialmente os relacionais e transgeracionais – exige conhecimento teórico em terapia sistêmica, psicopatologia ou medicina familiar. Profissionais que desejam usar o genograma como ferramenta diagnóstica devem buscar capacitação específica, como cursos de extensão em genograma e ecomapa.

Posso usar cores no genograma?

Sim, desde que haja uma legenda clara. Cores são úteis para destacar condições de saúde (ex.: vermelho para doenças cardiovasculares, azul para depressão) ou grupos de relações (ex.: verde para aliados, laranja para conflitos). Em publicações ou apresentações, lembre-se de que a legenda deve ser acessível também para pessoas com daltonismo.

Ultimas Palavras

O genograma é muito mais do que um desenho de família: é uma lente que revela padrões invisíveis a olho nu, conectando saúde, emoção e história em um único mapa. Sua construção exige cuidado ético, rigor na coleta de dados e sensibilidade para lidar com informações que, muitas vezes, tocam em feridas e segredos familiares.

Ao seguir o passo a passo apresentado – definir o objetivo, coletar informações, usar símbolos padronizados, organizar por gerações, registrar relações e analisar padrões – qualquer profissional pode criar um genograma útil e confiável. As ferramentas digitais disponíveis hoje facilitam o processo e permitem a colaboração remota, ampliando o alcance dessa prática.

Lembre-se: o genograma não substitui uma avaliação clínica aprofundada, mas a complementa, oferecendo uma perspectiva sistêmica que enriquece o diagnóstico e o planejamento terapêutico. Se você ainda não experimentou, comece com um genograma simples da sua própria família – a experiência pode surpreendê-lo com descobertas valiosas sobre os fios que tecem sua história.

Materiais de Apoio

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu seu caminho num cruzamento pouco habitado: o que une tecnologia e linguagem. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de estrada, tornou-se referência na curadoria de conteúdo digital no Brasil — não por seguir fórmulas, mas por se recusar a tratar como coisas separadas o ato de programar sistemas e o ato de produzir sentido...

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