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Saúde Publicado em Por Stéfano Barcellos

CID F84 e F90: Entenda Diferenças e Sintomas

CID F84 e F90: Entenda Diferenças e Sintomas
Checado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Antes de Tudo

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, mais conhecida como CID, é o sistema padrão utilizado globalmente para categorizar condições de saúde. No contexto dos transtornos do neurodesenvolvimento, dois códigos se destacam pela frequência com que aparecem em laudos médicos, relatórios escolares e documentos administrativos: o CID F84 e o CID F90. Embora ambos pertençam à décima revisão da CID (CID-10), eles designam condições distintas — respectivamente, os Transtornos Globais do Desenvolvimento (que incluem o autismo) e os Transtornos Hipercinéticos (associados ao Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade, TDAH).

Com a recente transição para a CID-11, a nomenclatura e a categorização desses transtornos mudaram significativamente. No entanto, a CID-10 ainda é amplamente utilizada em sistemas de saúde, escolas e convênios no Brasil e em outros países. Compreender as diferenças entre F84 e F90, seus sintomas, comorbidades e implicações práticas é essencial para profissionais da saúde, educadores, famílias e pacientes. Este artigo oferece uma análise aprofundada, baseada em fontes oficiais e nas diretrizes mais recentes, para esclarecer esses dois códigos frequentemente confundidos.

Explorando o Tema

O que é CID F84?

O código CID F84 agrupa os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) na CID-10. Esta categoria inclui um espectro de condições caracterizadas por comprometimento qualitativo das interações sociais recíprocas, da comunicação verbal e não verbal e por padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades. As subcategorias mais conhecidas são:

  • F84.0 – Autismo infantil: Transtorno que se manifesta antes dos três anos de idade, com prejuízos nas áreas de interação social, comunicação e comportamentos repetitivos.
  • F84.1 – Autismo atípico: Difere do autismo infantil pela idade de início mais tardia ou por não preencher todos os critérios diagnósticos.
  • F84.5 – Síndrome de Asperger: Caracterizada por dificuldades sociais e interesses restritos, sem atraso significativo na linguagem ou no desenvolvimento cognitivo.
  • F84.8 – Outros transtornos globais do desenvolvimento
  • F84.9 – Transtorno global do desenvolvimento não especificado
Atualmente, a comunidade científica e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam o uso do termo Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que na CID-11 recebe o código 6A02. A mudança reflete uma visão dimensional do autismo, em vez de categorias isoladas. Estima-se que cerca de 1% da população mundial tenha TEA, com prevalência crescente devido à maior conscientização e melhores métodos de rastreio. Nos Estados Unidos, dados recentes do CDC indicam que 1 em cada 36 crianças é diagnosticada com TEA.

O que é CID F90?

O código CID F90 corresponde aos Transtornos Hipercinéticos, termo utilizado na CID-10 para o que hoje é amplamente conhecido como Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). As subcategorias incluem:

  • F90.0 – Transtorno da atividade e da atenção: Forma mais comum, com predomínio de desatenção, impulsividade e hiperatividade.
  • F90.1 – Transtorno hipercinético associado a transtorno de conduta
  • F90.8 – Outros transtornos hipercinéticos
  • F90.9 – Transtorno hipercinético não especificado
O TDAH é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais prevalentes na infância, afetando cerca de 5% das crianças e 2,5% a 3% dos adultos em todo o mundo. Seus sintomas centrais — desatenção, hiperatividade e impulsividade — podem persistir ao longo da vida, impactando o desempenho escolar, a vida profissional e as relações interpessoais. Na CID-11, o TDAH é codificado como 6A05, com critérios mais alinhados ao conhecimento atual, incluindo a possibilidade de apresentação predominantemente desatenta ou hiperativa-impulsiva.

Comorbidade F84 e F90

Um aspecto clínico relevante é a alta taxa de comorbidade entre TEA e TDAH. Estudos indicam que entre 30% e 50% das crianças com TEA também preenchem critérios para TDAH. Essa sobreposição exige avaliação multiprofissional cuidadosa, pois os sintomas de desatenção e impulsividade no TEA podem ser confundidos com TDAH, e vice-versa. A presença de ambos os diagnósticos implica a necessidade de intervenções específicas para cada condição, além de adaptações educacionais e suporte comportamental.

Transição da CID-10 para a CID-11

A CID-11 foi adotada pela OMS em 2019 e entrou em vigor internacionalmente em 2022. No Brasil, o Ministério da Saúde está em processo de implementação gradual. A principal mudança para os transtornos aqui discutidos é a substituição dos códigos F84 e F90 por:

CID-10CID-11Descrição
F84 (TGD)6A02 (Transtorno do Espectro do Autismo)Inclui autismo, Asperger e outras condições em um espectro único, com especificadores de linguagem e nível de suporte.
F90 (Transtornos Hipercinéticos)6A05 (Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade)Três apresentações: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa-impulsiva e combinada.
Na prática, muitos sistemas de saúde e educação ainda exigem o código CID-10 para fins administrativos. Profissionais podem complementar o laudo com a CID-11, quando aplicável, para garantir maior precisão diagnóstica.

Implicações práticas

Os códigos F84 e F90 são frequentemente solicitados para:

  • Adaptações escolares: planos de ensino individualizados, tempo adicional em provas, salas de recursos.
  • Benefícios e perícias médicas: como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) no Brasil.
  • Documentos para inclusão no mercado de trabalho: programas de cotas e acomodações raciais.
  • Avaliação neuropsicológica: para definir perfil cognitivo e necessidades de suporte.
A tendência atual, reforçada por guidelines como os do NICE (National Institute for Health and Care Excellence), é a elaboração de laudos funcionais que descrevem o impacto dos sintomas nas atividades diárias, em vez de apenas informar o código diagnóstico.

Sintomas comuns: uma lista comparativa

Para facilitar a diferenciação, abaixo estão os principais sintomas de cada condição:

Sintomas do Transtorno do Espectro do Autismo (F84 / 6A02)

  • Dificuldade em interações sociais recíprocas (ex.: pouco contato visual, dificuldade em manter conversas)
  • Prejuízo na comunicação não verbal (expressões faciais, tom de voz)
  • Comportamentos repetitivos (balanceio, alinhar objetos, ecolalia)
  • Interesses restritos e intensos (ex.: fixação por trens, números)
  • Hipersensibilidade ou hipossensibilidade a estímulos sensoriais (som, luz, toque)
  • Resistência a mudanças na rotina
Sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (F90 / 6A05)
  • Desatenção frequente (dificuldade em manter foco, erros por descuido, esquecimentos)
  • Hiperatividade motora (agitação, dificuldade em permanecer sentado)
  • Impulsividade (interrompe os outros, age sem pensar)
  • Dificuldade em organização e planejamento
  • Baixa tolerância à frustração
  • Sintomas podem ser mais evidentes em ambientes estruturados (escola, trabalho)

Tabela comparativa: CID F84 vs CID F90

AspectoCID F84 (Transtornos Globais do Desenvolvimento / Autismo)CID F90 (Transtornos Hipercinéticos / TDAH)
Definição principalPrejuízo qualitativo na interação social, comunicação e comportamentos repetitivos.Padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade.
Idade de inícioGeralmente antes dos 3 anos (embora possa ser diagnosticado mais tarde).Sintomas frequentemente observados antes dos 12 anos.
Sintomas nuclearesDificuldades sociais, comunicação atípica, rigidez comportamental.Desatenção, hiperatividade, impulsividade.
Comorbidades comunsTDAH, ansiedade, depressão, deficiência intelectual, epilepsia.Ansiedade, depressão, transtorno desafiador opositivo, transtorno de conduta, TEA.
Prevalência estimada (global)Cerca de 1% da população.5% em crianças; 2,5–3% em adultos.
Mudança na CID-11Substituído pelo código 6A02 (Transtorno do Espectro do Autismo), com especificadores de linguagem e suporte.Substituído pelo código 6A05 (TDAH), com três apresentações.
Abordagem terapêuticaTerapia comportamental, fonoaudiologia, terapia ocupacional, suporte educacional.Psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, medicação (estimulantes, não estimulantes), coaching.
Impacto funcionalCompromete principalmente habilidades sociais e comunicação.Compromete atenção, organização e controle de impulsos.
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Tire Suas Duvidas

CID F84 é a mesma coisa que autismo?

Sim, o CID F84 agrupa os Transtornos Globais do Desenvolvimento, sendo o autismo infantil (F84.0) a principal subcategoria. Na CID-11, esse grupo foi substituído pelo Transtorno do Espectro do Autismo (6A02), que unifica todas as formas de autismo em um único diagnóstico dimensional.

CID F90 é TDAH?

Sim, o CID F90 corresponde aos Transtornos Hipercinéticos, termo que na prática clínica equivale ao TDAH. Na CID-11, o código passou a ser 6A05, com critérios mais específicos para as apresentações desatenta, hiperativa-impulsiva e combinada.

A CID-11 já substituiu a CID-10 no Brasil?

O Brasil adotou oficialmente a CID-11 em 2022, mas a implementação prática nos sistemas de saúde, convênios e escolas ainda é gradual. Muitos serviços continuam utilizando a CID-10 por questões de compatibilidade administrativa. Recomenda-se que profissionais mencionem ambos os códigos quando possível para evitar problemas burocráticos.

Uma pessoa pode ter diagnóstico de CID F84 e CID F90 ao mesmo tempo?

Sim, é muito comum haver comorbidade entre TEA e TDAH. Estima-se que de 30% a 50% das crianças com autismo também apresentem critérios para TDAH. Nesses casos, ambos os códigos devem ser registrados, e o plano de intervenção precisa abordar os sintomas de ambas as condições.

Como esses códigos são usados em laudos para escola?

As escolas geralmente solicitam o laudo médico com o código CID-10 (F84 ou F90) para justificar adaptações curriculares, como tempo extra em provas, suporte de monitor ou sala de recursos. No entanto, a tendência atual é que o laudo descreva as necessidades funcionais específicas do aluno, indo além do código.

Crianças com F84 podem ter sintomas de hiperatividade e desatenção?

Sim, muitas crianças com autismo apresentam comportamentos que se assemelham ao TDAH, como agitação, impulsividade e dificuldade de concentração em atividades que não são de seu interesse. Porém, a origem desses sintomas pode estar ligada a questões sensoriais ou de rigidez comportamental, e não necessariamente a um TDAH comórbido. Uma avaliação neuropsicológica ajuda a diferenciar.

O que fazer se meu filho recebeu o laudo com CID F84.0, mas a escola usa CID-11?

É possível solicitar ao médico que emita um complemento com o código CID-11 correspondente (6A02). Esse documento adicional pode evitar dúvidas administrativas. Muitos profissionais já incluem ambos os códigos no laudo.

O tratamento para F84 e F90 é o mesmo?

Não. Embora haja sobreposição em algumas abordagens (como terapia comportamental e psicopedagogia), o tratamento do autismo foca em comunicação social, integração sensorial e redução de comportamentos repetitivos, enquanto o tratamento do TDAH enfatiza controle de impulsos, organização e, frequentemente, uso de medicamentos estimulantes. Cada condição exige um plano terapêutico individualizado.

Consideracoes Finais

Os códigos F84 e F90 da CID-10 representam, respectivamente, os Transtornos Globais do Desenvolvimento (autismo e condições relacionadas) e os Transtornos Hipercinéticos (TDAH). Embora a CID-11 tenha atualizado a nomenclatura para Transtorno do Espectro do Autismo (6A02) e Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (6A05), os códigos antigos ainda são amplamente utilizados na prática diária.

Compreender as diferenças entre essas condições é crucial para um diagnóstico preciso, intervenções direcionadas e a garantia de direitos educacionais e sociais. A alta taxa de comorbidade entre TEA e TDAH reforça a necessidade de avaliações multiprofissionais que considerem o perfil único de cada indivíduo. Além disso, a transição para a CID-11 traz uma visão mais integrada e dimensional desses transtornos, alinhada às evidências científicas mais recentes.

Para profissionais e famílias, o mais importante é ir além do código diagnóstico: descrever as necessidades funcionais, os níveis de suporte exigidos e o impacto na qualidade de vida. Dessa forma, o laudo se torna uma ferramenta efetiva de inclusão, seja na escola, no trabalho ou nos serviços de saúde.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu seu caminho num cruzamento pouco habitado: o que une tecnologia e linguagem. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de estrada, tornou-se referência na curadoria de conteúdo digital no Brasil — não por seguir fórmulas, mas por se recusar a tratar como coisas separadas o ato de programar sistemas e o ato de produzir sentido...

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