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Saúde Publicado em Por Stéfano Barcellos

CID 11 TEA Nível 1: Sintomas, Diagnóstico e Apoio

CID 11 TEA Nível 1: Sintomas, Diagnóstico e Apoio
Confirmado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Por Onde Comecar

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação social e o repertório de comportamentos, interesses e atividades. Com a entrada em vigor da 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde, a partir de janeiro de 2022, houve mudanças significativas na forma como o autismo é diagnosticado e codificado. No entanto, uma confusão terminológica comum persiste entre profissionais, pacientes e familiares: a expressão “CID-11 TEA nível 1”.

Neste artigo, esclarecemos que “nível 1” é uma classificação de suporte do DSM-5-TR, o manual diagnóstico americano, e não uma categoria oficial da CID-11. Na CID-11, o autismo é unificado sob o código 6A02 (Transtorno do Espectro do Autismo) , com subdivisões baseadas na presença ou ausência de deficiência intelectual e comprometimento da linguagem funcional. O objetivo deste texto é explicar o que significa, na prática, o perfil funcional que popularmente se associa ao “nível 1”, como a CID-11 o classifica, quais são os sintomas mais comuns, como é feito o diagnóstico e que tipo de apoio pode ser oferecido.

Compreender essa distinção é essencial para garantir o acesso correto a direitos, terapias e políticas públicas, especialmente no Brasil, onde a transição para a CID-11 está em curso e deve se consolidar administrativamente até 2027.

Como Funciona na Pratica

1 A classificação oficial da CID-11 para o TEA

A CID-11 representa um avanço ao unificar todos os diagnósticos anteriormente separados – como autismo infantil, síndrome de Asperger, autismo atípico e transtorno desintegrativo da infância – em um único código: 6A02. Dentro desse código, são criadas subcategorias que consideram dois eixos principais:

  • Deficiência intelectual (DI) : presente ou ausente.
  • Comprometimento da linguagem funcional: ausente ou leve / presente / ausência de linguagem funcional.
As principais subcategorias são:
  • 6A02.0 – TEA sem deficiência intelectual e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional.
  • 6A02.1 – TEA com deficiência intelectual e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional.
  • 6A02.2 – TEA sem deficiência intelectual e com comprometimento da linguagem funcional.
  • 6A02.3 – TEA com deficiência intelectual e com comprometimento da linguagem funcional.
  • 6A02.4 – TEA sem deficiência intelectual e com ausência de linguagem funcional.
  • 6A02.5 – TEA com deficiência intelectual e com ausência de linguagem funcional.
  • 6A02.Y – Outro TEA especificado.
  • 6A02.Z – TEA não especificado.
Note que não há nenhum “nível” na CID-11. A descrição funcional é feita por meio do grau de suporte (que corresponde ao nível do DSM-5-TR) em relatórios clínicos complementares, mas o código em si não carrega essa informação.

2 O que significa “nível 1” no DSM-5-TR?

No DSM-5-TR, o TEA é classificado em três níveis de gravidade baseados na quantidade de suporte necessário:

  • Nível 1: “Exigindo apoio” – a pessoa apresenta déficits na comunicação social que causam prejuízos perceptíveis. Consegue iniciar interações, mas tem dificuldade em manter reciprocidade. Comportamentos restritos e repetitivos causam interferência significativa em um ou mais contextos. A pessoa pode parecer funcional em situações estruturadas, mas sofre com o esforço constante de camuflagem (masking).
  • Nível 2: “Exigindo apoio substancial” – déficits mais acentuados, menor flexibilidade e maior dificuldade para lidar com mudanças.
  • Nível 3: “Exigindo apoio muito substancial” – prejuízos severos, comunicação mínima, grande dependência.
Portanto, quando alguém se refere a “TEA nível 1”, está usando a nomenclatura do DSM-5-TR, não da CID-11. Na prática clínica brasileira, é comum que laudos misturem os dois sistemas, escrevendo, por exemplo: “CID 11 6A02.0 (TEA sem DI e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional), correspondente ao nível 1 de suporte do DSM-5-TR”.

3 Perfil funcional associado ao “nível 1”

Pessoas que se encaixam no perfil funcional correspondente ao nível 1 costumam apresentar:

  • Habilidades verbais relativamente preservadas, mas com dificuldades sutis na pragmática da linguagem.
  • Dificuldades em interpretar nuances sociais, ironia, figuras de linguagem.
  • Capacidade de manter emprego ou estudos regulares, mas com alto custo energético (burnout autista).
  • Interesses restritos intensos que podem ser canalizados para áreas produtivas.
  • Sensibilidades sensoriais que podem ser gerenciadas com adaptações.
  • Alta taxa de comorbidades, como ansiedade, depressão e transtorno de déficit de atenção.
É fundamental entender que nível 1 não significa “autismo leve” ou “pouco impacto”. O sofrimento emocional, o esforço de camuflagem e o risco de exaustão são reais e, muitas vezes, subestimados.

4 Sintomas comuns

Os sintomas nucleares do TEA são divididos em dois grandes domínios:

A. Déficits persistentes na comunicação social e interação social:

  • Dificuldade em iniciar e manter conversas recíprocas.
  • Prejuízo na compreensão de sinais não verbais (contato visual, expressões faciais, tom de voz).
  • Dificuldade em desenvolver, manter e compreender relacionamentos.
  • Interação social frequentemente marcada por rigidez ou falta de reciprocidade emocional.
B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades:
  • Movimentos motores estereotipados (flapping, balanço, girar objetos).
  • Insistência em rotinas e rituais não funcionais (resistência a mudanças).
  • Interesses fixos e intensos em tópicos específicos (às vezes chamados de “hiperfoco”).
  • Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais (aversão a sons, texturas, luzes; busca por estímulos táteis ou gustativos).
No perfil nível 1, esses sintomas podem ser mais sutis e às vezes mascarados pelo aprendizado social – o chamado masking – o que torna o diagnóstico mais tardio, especialmente em mulheres e pessoas não binárias.

5 Diagnóstico e avaliação

O diagnóstico do TEA deve ser feito por equipe multiprofissional (psiquiatra, neuropsicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional) com base em:

  • Entrevistas clínicas estruturadas (ex.: ADI-R, ADOS-2).
  • Avaliação neuropsicológica para descartar ou identificar déficits cognitivos.
  • Avaliação da linguagem funcional.
  • Histórico desenvolvimentoal detalhado.
  • Observação direta do comportamento.
Na CID-11, os critérios diagnósticos foram simplificados em relação à CID-10, mas mantêm a exigência de que os sintomas estejam presentes desde a primeira infância, mesmo que só se tornem plenamente manifestos quando as demandas sociais excedem a capacidade de adaptação.

6 Apoio e intervenções

O suporte para pessoas com TEA nível 1 deve ser individualizado e focado em:

  • Terapia cognitivo-comportamental para manejo de ansiedade e flexibilidade.
  • Treinamento de habilidades sociais (grupos, role-play).
  • Terapia ocupacional para integração sensorial e autorregulação.
  • Fonoaudiologia para pragmática e comunicação funcional.
  • Acomodações no trabalho e na escola (ambiente silencioso, pausas, instruções escritas claras).
  • Psicoterapia para identidade autista e desconstrução do masking.
Além disso, o uso de medicação pode ser necessário para tratar comorbidades como depressão, ansiedade ou TDAH, mas não existem medicamentos específicos para o autismo em si.

Lista: Características comuns de pessoas com TEA com perfil funcional semelhante ao nível 1

A seguir, uma lista de traços frequentemente observados em pessoas que, na prática clínica, são descritas como “TEA nível 1”:

  1. Boa capacidade de comunicação verbal, mas com dificuldades em diálogos espontâneos.
  2. Interesse intenso por temas específicos, que podem ser acadêmicos, técnicos ou artísticos.
  3. Sensibilidade a estímulos sensoriais (ruídos, luzes, texturas), que pode ser gerida com estratégias pessoais.
  4. Dificuldade em entender regras sociais implícitas e em perceber quando está sendo invasivo ou inadequado.
  5. Tendência a levar tudo ao pé da letra (literalidade).
  6. Necessidade de previsibilidade e rotinas; ansiedade diante de mudanças inesperadas.
  7. Alto nível de autorreflexão e consciência das próprias dificuldades.
  8. Histórico de diagnósticos anteriores, como ansiedade social, transtorno obsessivo-compulsivo ou transtorno de personalidade.
  9. Esgotamento frequente após interações sociais prolongadas (fadiga social).
  10. Dificuldade em manter contato visual sem desconforto.

Tabela comparativa: CID-10, CID-11 e DSM-5-TR para TEA

AspectoCID-10 (até 2021)CID-11 (a partir de 2022)DSM-5-TR (2013/2022)
Código(s) principal(is)F84.0 (autismo infantil), F84.5 (Asperger), F84.1 (autismo atípico), etc.6A02 (Transtorno do Espectro do Autismo)299.00 (Transtorno do Espectro do Autismo)
Unificação do espectroNão; diagnósticos separadosSim; espectro únicoSim; espectro único
SubclassificaçãoPor tipo de transtornoPor presença de deficiência intelectual e comprometimento da linguagem funcionalPor nível de suporte (1, 2, 3)
Inclusão de AspergerSim, como código distintoNão; foi incorporado ao espectroNão; foi incorporado ao espectro
Deficiência intelectualDiagnóstico separado (F70-F79)Integrada na subcategoria (6A02.0 a 6A02.5)Especificada como comorbidade separada
Linguagem funcionalNão considerada formalmente na subdivisãoEixo principal de subcategorizaçãoPode ser descrita em texto, mas não obrigatória no código
Níveis de suporteNão existemNão existem (mas podem ser acrescentados em descrição)Existem (Nível 1, 2, 3)
A tabela acima deixa claro que “nível 1” é exclusivo do DSM-5-TR e que, na CID-11, o perfil funcional equivalente ao nível 1 corresponde, em geral, à subcategoria 6A02.0 (autismo sem deficiência intelectual e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional). No entanto, é importante lembrar que uma pessoa com nível 1 pode ter também deficiência intelectual leve, o que a colocaria em 6A02.1.

Respostas Rapidas

Qual é a diferença entre “CID-11 TEA nível 1” e “DSM-5 nível 1”?

A CID-11 não possui o conceito de “nível”. Esse termo é exclusivo do DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e se refere ao grau de suporte necessário (nível 1 = “exigindo apoio”). Na prática clínica, muitos profissionais combinam as duas classificações: usam o código CID-11 e descrevem o nível do DSM-5-TR para indicar a intensidade do suporte. Portanto, “CID-11 TEA nível 1” é uma expressão híbrida, não oficial, mas amplamente compreendida.

Uma pessoa com “TEA nível 1” tem sintomas mais leves?

Não necessariamente. “Nível 1” indica que a pessoa precisa de apoio, mas não que o autismo seja leve. O sofrimento emocional, as dificuldades sociais e o cansaço decorrente da camuflagem podem ser intensos. O termo “leve” pode minimizar os desafios reais e dificultar o acesso a terapias e direitos. O correto é entender que o perfil funcional permite maior autonomia em contextos estruturados, mas com custos internos significativos.

Como é feito o diagnóstico de TEA nível 1 na CID-11?

O diagnóstico segue os critérios clínicos da CID-11, que exigem a presença de déficits persistentes na comunicação social e padrões restritos/repetitivos, com início na primeira infância. A avaliação inclui entrevistas, observação e testes padronizados. O profissional codifica com 6A02 e, em seguida, escolhe a subcategoria adequada (ex.: 6A02.0). O “nível 1” não aparece no código, mas pode ser mencionado no laudo descritivo, se o profissional optar por usar a referência do DSM-5-TR.

Pessoas com síndrome de Asperger agora são diagnosticadas com CID-11 6A02.0?

Sim. A CID-11 eliminou o diagnóstico específico de síndrome de Asperger. Quem antes era diagnosticado com F84.5 (CID-10) e se enquadra no perfil funcional de autismo sem deficiência intelectual e com linguagem funcional preservada receberá hoje o código 6A02.0. Isso não significa que a pessoa mudou, mas que a nomenclatura foi unificada para refletir a compreensão atual do espectro autista.

Quais são os direitos de uma pessoa com TEA nível 1 no Brasil?

No Brasil, a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) garante os mesmos direitos a todas as pessoas com TEA, independentemente do nível de suporte. Isso inclui atendimento integral pelo SUS e planos de saúde, acesso a terapias (ABA, fonoaudiologia, TO, psicologia), educação inclusiva com acompanhante especializado, e benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) quando comprovada a incapacidade para o trabalho. A classificação “nível 1” não exclui esses direitos; o que importa é a comprovação do diagnóstico e da necessidade de apoio.

O que fazer se uma criança ou adulto apresenta sinais de TEA nível 1, mas não tem diagnóstico?

O primeiro passo é buscar uma avaliação com equipe multiprofissional especializada. No Brasil, isso pode ser feito pelo SUS (Centros de Atenção Psicossocial Infantil - CAPSi, ambulatórios de neurodesenvolvimento) ou pela rede privada. É importante que o profissional tenha experiência com autismo em adultos e crianças, especialmente com perfis de alta funcionalidade. Enquanto aguarda, a pessoa pode se beneficiar de grupos de apoio on-line, leitura de relatos de autistas adultos e estratégias de autorregulação sensorial.

Fechando a Analise

A expressão “CID-11 TEA nível 1” reflete uma realidade comum na prática clínica e documental: a combinação de dois sistemas de classificação. Enquanto a CID-11 organiza o autismo por códigos baseados em deficiência intelectual e linguagem funcional, o DSM-5-TR utiliza níveis de suporte para descrever a intensidade das necessidades. Compreender essa distinção é fundamental para evitar equívocos que podem impactar o diagnóstico, as intervenções e o acesso a direitos.

O perfil funcional associado ao nível 1 é caracterizado por habilidades verbais relativamente preservadas, dificuldades sociais sutis – porém impactantes – e um alto custo emocional devido ao masking. O diagnóstico precoce e preciso, aliado a um plano de apoio individualizado que inclua terapia cognitivo-comportamental, treino de habilidades sociais e acomodações ambientais, pode melhorar significativamente a qualidade de vida.

Com a transição em andamento para a CID-11 no Brasil, que deve se consolidar administrativamente até 2027, espera-se que os profissionais se familiarizem com a nova nomenclatura e que os laudos passem a descrever de forma clara tanto o código CID quanto o nível de suporte, quando pertinente. O mais importante é que o atendimento centrado na pessoa, respeitando sua singularidade e necessidades, seja a prioridade – acima de qualquer sistema de classificação.

Fontes Consultadas

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu seu caminho num cruzamento pouco habitado: o que une tecnologia e linguagem. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de estrada, tornou-se referência na curadoria de conteúdo digital no Brasil — não por seguir fórmulas, mas por se recusar a tratar como coisas separadas o ato de programar sistemas e o ato de produzir sentido...

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