Por Onde Comecar
O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação social e o repertório de comportamentos, interesses e atividades. Com a entrada em vigor da 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde, a partir de janeiro de 2022, houve mudanças significativas na forma como o autismo é diagnosticado e codificado. No entanto, uma confusão terminológica comum persiste entre profissionais, pacientes e familiares: a expressão “CID-11 TEA nível 1”.
Neste artigo, esclarecemos que “nível 1” é uma classificação de suporte do DSM-5-TR, o manual diagnóstico americano, e não uma categoria oficial da CID-11. Na CID-11, o autismo é unificado sob o código 6A02 (Transtorno do Espectro do Autismo) , com subdivisões baseadas na presença ou ausência de deficiência intelectual e comprometimento da linguagem funcional. O objetivo deste texto é explicar o que significa, na prática, o perfil funcional que popularmente se associa ao “nível 1”, como a CID-11 o classifica, quais são os sintomas mais comuns, como é feito o diagnóstico e que tipo de apoio pode ser oferecido.
Compreender essa distinção é essencial para garantir o acesso correto a direitos, terapias e políticas públicas, especialmente no Brasil, onde a transição para a CID-11 está em curso e deve se consolidar administrativamente até 2027.
Como Funciona na Pratica
1 A classificação oficial da CID-11 para o TEA
A CID-11 representa um avanço ao unificar todos os diagnósticos anteriormente separados – como autismo infantil, síndrome de Asperger, autismo atípico e transtorno desintegrativo da infância – em um único código: 6A02. Dentro desse código, são criadas subcategorias que consideram dois eixos principais:
- Deficiência intelectual (DI) : presente ou ausente.
- Comprometimento da linguagem funcional: ausente ou leve / presente / ausência de linguagem funcional.
- 6A02.0 – TEA sem deficiência intelectual e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional.
- 6A02.1 – TEA com deficiência intelectual e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional.
- 6A02.2 – TEA sem deficiência intelectual e com comprometimento da linguagem funcional.
- 6A02.3 – TEA com deficiência intelectual e com comprometimento da linguagem funcional.
- 6A02.4 – TEA sem deficiência intelectual e com ausência de linguagem funcional.
- 6A02.5 – TEA com deficiência intelectual e com ausência de linguagem funcional.
- 6A02.Y – Outro TEA especificado.
- 6A02.Z – TEA não especificado.
2 O que significa “nível 1” no DSM-5-TR?
No DSM-5-TR, o TEA é classificado em três níveis de gravidade baseados na quantidade de suporte necessário:
- Nível 1: “Exigindo apoio” – a pessoa apresenta déficits na comunicação social que causam prejuízos perceptíveis. Consegue iniciar interações, mas tem dificuldade em manter reciprocidade. Comportamentos restritos e repetitivos causam interferência significativa em um ou mais contextos. A pessoa pode parecer funcional em situações estruturadas, mas sofre com o esforço constante de camuflagem (masking).
- Nível 2: “Exigindo apoio substancial” – déficits mais acentuados, menor flexibilidade e maior dificuldade para lidar com mudanças.
- Nível 3: “Exigindo apoio muito substancial” – prejuízos severos, comunicação mínima, grande dependência.
3 Perfil funcional associado ao “nível 1”
Pessoas que se encaixam no perfil funcional correspondente ao nível 1 costumam apresentar:
- Habilidades verbais relativamente preservadas, mas com dificuldades sutis na pragmática da linguagem.
- Dificuldades em interpretar nuances sociais, ironia, figuras de linguagem.
- Capacidade de manter emprego ou estudos regulares, mas com alto custo energético (burnout autista).
- Interesses restritos intensos que podem ser canalizados para áreas produtivas.
- Sensibilidades sensoriais que podem ser gerenciadas com adaptações.
- Alta taxa de comorbidades, como ansiedade, depressão e transtorno de déficit de atenção.
4 Sintomas comuns
Os sintomas nucleares do TEA são divididos em dois grandes domínios:
A. Déficits persistentes na comunicação social e interação social:
- Dificuldade em iniciar e manter conversas recíprocas.
- Prejuízo na compreensão de sinais não verbais (contato visual, expressões faciais, tom de voz).
- Dificuldade em desenvolver, manter e compreender relacionamentos.
- Interação social frequentemente marcada por rigidez ou falta de reciprocidade emocional.
- Movimentos motores estereotipados (flapping, balanço, girar objetos).
- Insistência em rotinas e rituais não funcionais (resistência a mudanças).
- Interesses fixos e intensos em tópicos específicos (às vezes chamados de “hiperfoco”).
- Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais (aversão a sons, texturas, luzes; busca por estímulos táteis ou gustativos).
5 Diagnóstico e avaliação
O diagnóstico do TEA deve ser feito por equipe multiprofissional (psiquiatra, neuropsicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional) com base em:
- Entrevistas clínicas estruturadas (ex.: ADI-R, ADOS-2).
- Avaliação neuropsicológica para descartar ou identificar déficits cognitivos.
- Avaliação da linguagem funcional.
- Histórico desenvolvimentoal detalhado.
- Observação direta do comportamento.
6 Apoio e intervenções
O suporte para pessoas com TEA nível 1 deve ser individualizado e focado em:
- Terapia cognitivo-comportamental para manejo de ansiedade e flexibilidade.
- Treinamento de habilidades sociais (grupos, role-play).
- Terapia ocupacional para integração sensorial e autorregulação.
- Fonoaudiologia para pragmática e comunicação funcional.
- Acomodações no trabalho e na escola (ambiente silencioso, pausas, instruções escritas claras).
- Psicoterapia para identidade autista e desconstrução do masking.
Lista: Características comuns de pessoas com TEA com perfil funcional semelhante ao nível 1
A seguir, uma lista de traços frequentemente observados em pessoas que, na prática clínica, são descritas como “TEA nível 1”:
- Boa capacidade de comunicação verbal, mas com dificuldades em diálogos espontâneos.
- Interesse intenso por temas específicos, que podem ser acadêmicos, técnicos ou artísticos.
- Sensibilidade a estímulos sensoriais (ruídos, luzes, texturas), que pode ser gerida com estratégias pessoais.
- Dificuldade em entender regras sociais implícitas e em perceber quando está sendo invasivo ou inadequado.
- Tendência a levar tudo ao pé da letra (literalidade).
- Necessidade de previsibilidade e rotinas; ansiedade diante de mudanças inesperadas.
- Alto nível de autorreflexão e consciência das próprias dificuldades.
- Histórico de diagnósticos anteriores, como ansiedade social, transtorno obsessivo-compulsivo ou transtorno de personalidade.
- Esgotamento frequente após interações sociais prolongadas (fadiga social).
- Dificuldade em manter contato visual sem desconforto.
Tabela comparativa: CID-10, CID-11 e DSM-5-TR para TEA
| Aspecto | CID-10 (até 2021) | CID-11 (a partir de 2022) | DSM-5-TR (2013/2022) |
|---|---|---|---|
| Código(s) principal(is) | F84.0 (autismo infantil), F84.5 (Asperger), F84.1 (autismo atípico), etc. | 6A02 (Transtorno do Espectro do Autismo) | 299.00 (Transtorno do Espectro do Autismo) |
| Unificação do espectro | Não; diagnósticos separados | Sim; espectro único | Sim; espectro único |
| Subclassificação | Por tipo de transtorno | Por presença de deficiência intelectual e comprometimento da linguagem funcional | Por nível de suporte (1, 2, 3) |
| Inclusão de Asperger | Sim, como código distinto | Não; foi incorporado ao espectro | Não; foi incorporado ao espectro |
| Deficiência intelectual | Diagnóstico separado (F70-F79) | Integrada na subcategoria (6A02.0 a 6A02.5) | Especificada como comorbidade separada |
| Linguagem funcional | Não considerada formalmente na subdivisão | Eixo principal de subcategorização | Pode ser descrita em texto, mas não obrigatória no código |
| Níveis de suporte | Não existem | Não existem (mas podem ser acrescentados em descrição) | Existem (Nível 1, 2, 3) |
Respostas Rapidas
Qual é a diferença entre “CID-11 TEA nível 1” e “DSM-5 nível 1”?
A CID-11 não possui o conceito de “nível”. Esse termo é exclusivo do DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e se refere ao grau de suporte necessário (nível 1 = “exigindo apoio”). Na prática clínica, muitos profissionais combinam as duas classificações: usam o código CID-11 e descrevem o nível do DSM-5-TR para indicar a intensidade do suporte. Portanto, “CID-11 TEA nível 1” é uma expressão híbrida, não oficial, mas amplamente compreendida.
Uma pessoa com “TEA nível 1” tem sintomas mais leves?
Não necessariamente. “Nível 1” indica que a pessoa precisa de apoio, mas não que o autismo seja leve. O sofrimento emocional, as dificuldades sociais e o cansaço decorrente da camuflagem podem ser intensos. O termo “leve” pode minimizar os desafios reais e dificultar o acesso a terapias e direitos. O correto é entender que o perfil funcional permite maior autonomia em contextos estruturados, mas com custos internos significativos.
Como é feito o diagnóstico de TEA nível 1 na CID-11?
O diagnóstico segue os critérios clínicos da CID-11, que exigem a presença de déficits persistentes na comunicação social e padrões restritos/repetitivos, com início na primeira infância. A avaliação inclui entrevistas, observação e testes padronizados. O profissional codifica com 6A02 e, em seguida, escolhe a subcategoria adequada (ex.: 6A02.0). O “nível 1” não aparece no código, mas pode ser mencionado no laudo descritivo, se o profissional optar por usar a referência do DSM-5-TR.
Pessoas com síndrome de Asperger agora são diagnosticadas com CID-11 6A02.0?
Sim. A CID-11 eliminou o diagnóstico específico de síndrome de Asperger. Quem antes era diagnosticado com F84.5 (CID-10) e se enquadra no perfil funcional de autismo sem deficiência intelectual e com linguagem funcional preservada receberá hoje o código 6A02.0. Isso não significa que a pessoa mudou, mas que a nomenclatura foi unificada para refletir a compreensão atual do espectro autista.
Quais são os direitos de uma pessoa com TEA nível 1 no Brasil?
No Brasil, a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) garante os mesmos direitos a todas as pessoas com TEA, independentemente do nível de suporte. Isso inclui atendimento integral pelo SUS e planos de saúde, acesso a terapias (ABA, fonoaudiologia, TO, psicologia), educação inclusiva com acompanhante especializado, e benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) quando comprovada a incapacidade para o trabalho. A classificação “nível 1” não exclui esses direitos; o que importa é a comprovação do diagnóstico e da necessidade de apoio.
O que fazer se uma criança ou adulto apresenta sinais de TEA nível 1, mas não tem diagnóstico?
O primeiro passo é buscar uma avaliação com equipe multiprofissional especializada. No Brasil, isso pode ser feito pelo SUS (Centros de Atenção Psicossocial Infantil - CAPSi, ambulatórios de neurodesenvolvimento) ou pela rede privada. É importante que o profissional tenha experiência com autismo em adultos e crianças, especialmente com perfis de alta funcionalidade. Enquanto aguarda, a pessoa pode se beneficiar de grupos de apoio on-line, leitura de relatos de autistas adultos e estratégias de autorregulação sensorial.
Fechando a Analise
A expressão “CID-11 TEA nível 1” reflete uma realidade comum na prática clínica e documental: a combinação de dois sistemas de classificação. Enquanto a CID-11 organiza o autismo por códigos baseados em deficiência intelectual e linguagem funcional, o DSM-5-TR utiliza níveis de suporte para descrever a intensidade das necessidades. Compreender essa distinção é fundamental para evitar equívocos que podem impactar o diagnóstico, as intervenções e o acesso a direitos.
O perfil funcional associado ao nível 1 é caracterizado por habilidades verbais relativamente preservadas, dificuldades sociais sutis – porém impactantes – e um alto custo emocional devido ao masking. O diagnóstico precoce e preciso, aliado a um plano de apoio individualizado que inclua terapia cognitivo-comportamental, treino de habilidades sociais e acomodações ambientais, pode melhorar significativamente a qualidade de vida.
Com a transição em andamento para a CID-11 no Brasil, que deve se consolidar administrativamente até 2027, espera-se que os profissionais se familiarizem com a nova nomenclatura e que os laudos passem a descrever de forma clara tanto o código CID quanto o nível de suporte, quando pertinente. O mais importante é que o atendimento centrado na pessoa, respeitando sua singularidade e necessidades, seja a prioridade – acima de qualquer sistema de classificação.
Fontes Consultadas
- OMS. ICD-11 Browser (visualização oficial da classificação). https://icd.who.int/browse/2025-01/mms/en
- Autismo e Realidade. TEA na CID-11: o que muda?. https://autismoerealidade.org.br/2022/01/14/tea-na-cid-11-o-que-muda/
- Tismoo. CID-11 unifica Transtorno do Espectro do Autismo no código 6A02. https://tismoo.com.br/saude/diagnostico/cid-11-unifica-transtorno-do-espectro-do-autismo-no-codigo-6a02/
