Primeiros Passos
Entre as dúvidas mais frequentes de quem escreve em português está a escolha entre as formas “a fazer” e “à fazer”. À primeira vista, pode parecer uma questão menor, mas o uso inadequado da crase compromete a clareza do texto e, em contextos formais, pode prejudicar a credibilidade do autor. A confusão é compreensível: a crase (acento grave indicador de fusão da preposição “a” com o artigo feminino “a”) aparece em muitas situações do dia a dia, e o falante muitas vezes transfere essa regra para construções com verbos no infinitivo, sem perceber que ali o “a” é apenas preposição, e não há artigo feminino.
Este artigo tem por objetivo esclarecer de vez o uso correto de “a fazer” e demonstrar por que “à fazer” é, na grande maioria dos casos, um erro gramatical. Abordaremos a regra prática, os contextos em que a crase realmente ocorre, exemplos do cotidiano, uma tabela comparativa e uma seção de perguntas frequentes. Ao final, você terá segurança para empregar a expressão adequadamente em qualquer texto, seja ele acadêmico, jurídico, jornalístico ou informal.
Aspectos Essenciais
A dúvida surge porque a língua portuguesa possui dois “as” que podem se confundir: a preposição “a” (sem acento) e a combinação da preposição “a” com o artigo definido feminino “a”, que resulta em “à” (com crase). Quando escrevemos “coisas a fazer”, o “a” é exclusivamente preposição, regida por um termo anterior (como “coisas”, “tarefas”, “assuntos”) e seguida de um verbo no infinitivo (“fazer”, “resolver”, “pagar”). Nesse padrão, não há artigo feminino após o “a”, pois o verbo não admite artigo. Portanto, a crase é impossível.
A regra fundamental é: diante de verbos no infinitivo, usa-se apenas a preposição “a”, sem crase. Isso vale para qualquer verbo: “a fazer”, “a pagar”, “a comprar”, “a resolver”, “a concluir”. A confusão costuma ocorrer porque o falante associa a crase a uma ideia de formalidade ou correção, mas a gramática é clara: crase só ocorre quando há fusão de “a” (preposição) com “a” (artigo ou pronome). Como verbos não são antecedidos por artigo feminino, a crase não se aplica.
Contextos em que a crase aparece (e que não devem ser confundidos):
- Antes de palavras femininas que aceitam artigo: “ir à escola” (a + a escola), “referir-se à questão” (a + a questão).
- Em locuções adverbiais femininas: “à noite”, “à tarde”, “à vontade”.
- Antes de pronomes demonstrativos “aquela”, “aquilo”: “àquela hora”, “àquilo que foi dito”.
- Antes de nomes de lugares que admitem artigo: “vou à Bahia”, mas “vou a Brasília” (pois “Brasília” não admite artigo).
Exemplos do uso correto:
- “Ainda tenho três relatórios a entregar até sexta-feira.”
- “Há muitas contas a pagar no início do mês.”
- “Os alunos têm exercícios a resolver para a próxima aula.”
- “A casa a alugar fica no centro da cidade.”
- “Tenho contas à pagar.” (errado)
- “Documentos à anexar.” (errado)
- “Atividades à fazer.” (errado)
Por que a confusão persiste?
- Falsa impressão de formalidade: Muitas pessoas acreditam que o acento grave torna o texto mais elegante, e o acrescentam indiscriminadamente.
- Influência de expressões com substantivos: Como em “à vista”, “à mão”, “à direita”, o falante generaliza e aplica a crase antes de verbos.
- Falta de estudo gramatical: O ensino de crase muitas vezes foca nas regras com substantivos, deixando de lado a proibição diante de verbos.
- Erros em meios de comunicação: Mesmo em jornais e revistas, é possível encontrar deslizes, o que reforça a dúvida.
Contexto jurídico e formal: Em petições, contratos e documentos oficiais, o uso de “a fazer” é padrão. A Migalhas, coluna de gramática jurídica, já esclareceu que “a fazer” está correto e que “à fazer” é inadequado. Da mesma forma, no jornalismo, manuais de redação recomendam a forma sem crase.
Outro ponto relevante: a expressão “a fazer” pode ser substituída por “por fazer” ou “para fazer” em muitos contextos, mas a forma com “a” é mais econômica e amplamente aceita. Exemplo: “tarefas por fazer” = “tarefas a fazer”. Ambas são corretas, mas a primeira pode soar mais coloquial.
Lista de situações comuns e como escrever corretamente
Abaixo, uma lista de expressões frequentemente grafadas de forma equivocada, com a correção indicada:
- Correto: Tarefas a fazer
- Correto: Provas a corrigir
- Correto: Documentos a assinar
- Correto: Contas a pagar
- Correto: Itens a comprar
- Correto: Assuntos a tratar
- Correto: Casa a alugar
- Correto: Pedidos a confirmar
- Correto: Trabalhos a entregar
- Correto: Questões a resolver
Perceba que o padrão é sempre o mesmo: verbo no infinitivo precedido de “a” (preposição). Nenhuma dessas construções admite artigo feminino, pois o verbo não é um substantivo. Portanto, a crase está descartada.
Tabela comparativa: “a fazer” vs. “à fazer”
| Aspecto | “a fazer” | “à fazer” |
|---|---|---|
| Classificação gramatical | Preposição “a” + verbo no infinitivo | Pretensa crase (a + a) + verbo – construção inexistente |
| Correção gramatical | Correto em todos os contextos | Incorreto na imensa maioria dos casos |
| Regra aplicada | Preposição exigida por termo anterior; verbo não aceita artigo | Crase só ocorre diante de palavra feminina que admita artigo; verbos não admitem |
| Exemplo prático | “Há muito trabalho a fazer.” | “Há muito trabalho à fazer.” (erro) |
| Uso em textos formais | Recomendado por gramáticas e manuais | Evitado; considerado desvio grave |
| Origem da confusão | – | Falsa associação com formalidade ou influência de expressões com substantivos femininos |
| Quando pode aparecer corretamente | Nunca com verbo; apenas se “fazer” for substituído por um substantivo feminino (ex.: “à feitura”) – uso raro e literário | Em contexto de crase diante de palavra feminina: “à face”, “à fala”, mas nunca “à fazer” |
| Consequência do uso incorreto | – | Prejuízo à credibilidade; pode ser considerado erro em provas, concursos e redações |
Perguntas Frequentes (FAQ)
“a fazer” ou “à fazer”: qual é o correto?
A forma correta é “a fazer”, sem crase. O “a” nessa construção é apenas preposição, e o verbo “fazer” está no infinitivo. Como verbos não admitem artigo feminino, não há fusão que justifique a crase. Escrever “à fazer” é um erro gramatical.
Por que tanta gente usa “à fazer” se está errado?
A confusão ocorre por três motivos principais: (1) muitos associam o acento grave a um sinal de formalidade e o usam indiscriminadamente; (2) há influência de expressões corretas com crase diante de substantivos femininos (como “à noite”, “à procura”), e o falante generaliza para verbos; (3) o ensino de crase nem sempre enfatiza a proibição diante de verbos, deixando lacunas no aprendizado.
Existe alguma situação em que “à fazer” seja aceito?
Em textos contemporâneos, não. Apenas em contextos arcaicos ou em tentativas artificiais de substantivar o verbo, o que é rebuscado e desnecessário. Por exemplo, “dedicou-se à fazer” é errado; o correto seria “dedicou-se ao fazer” (se quiser usar o substantivo masculino “fazer”) ou “dedicou-se à feitura” (substantivo feminino). Na prática, evite “à fazer” em qualquer circunstância.
A expressão “a fazer” pode ser substituída por outras?
Sim, é comum usar “por fazer” ou “para fazer”. Exemplo: “Tenho tarefas a fazer” = “Tenho tarefas por fazer” = “Tenho tarefas para fazer”. Todas são corretas, mas “a fazer” é mais direta e muito usada em listas e documentos. A escolha depende do estilo e do contexto.
Em frases como “Há muitos trabalhos a fazer”, o “a” é preposição ou artigo?
O “a” é preposição. O termo “trabalhos” rege a preposição “a”, e o verbo “fazer” completa o sentido. Se houvesse artigo, ele estaria antes de um substantivo, não de um verbo. Por exemplo, em “Há muitos trabalhos a realizar”, também é preposição. A presença do verbo no infinitivo é a chave para identificar que não há crase.
Como memorizar a regra de uma vez por todas?
Uma dica simples: nunca coloque crase antes de verbo. Decore essa frase. Outra técnica: substitua o verbo por um substantivo feminino. Se fizer sentido com artigo, pode haver crase; se não, é preposição pura. Exemplo: “coisas a fazer” – substitua “fazer” por “realização”: “coisas a realização” não funciona. Logo, sem crase. Já “refiro-me à realização” funciona porque “realização” é substantivo feminino que aceita artigo.
O uso de “a fazer” é aceito em provas de concursos e vestibulares?
Sim, é a forma padrão e correta. Em provas de língua portuguesa, a banca espera que o candidato saiba que “a fazer” não leva crase. Questões de crase frequentemente cobram essa distinção, e escrever “à fazer” resultaria em erro na redação ou em questões objetivas. Portanto, é essencial dominar essa regra.
E quando o verbo “fazer” é usado em locuções como “à medida que”? Aí tem crase?
“À medida que” é uma locução conjuntiva que exige crase porque “medida” é um substantivo feminino (a medida). O “a” da locução é preposição que se funde com o artigo de “medida”. Isso não tem relação com o verbo “fazer”. São construções diferentes. A confusão entre “a fazer” e “à medida” é outro exemplo de como a crase pode gerar dúvidas, mas as regras são distintas.
Como corrigir textos que usam “à fazer”?
Basta substituir “à” por “a”. Exemplo: “documentos à anexar” vira “documentos a anexar”. Se houver outras palavras femininas no mesmo texto, verifique se a crase é realmente necessária. Leia o texto em voz alta; se o “a” antes do verbo não soar como “a” (preposição) mas como “à” (com som aberto), pode ser um sinal de erro. Treine com exemplos.
O que as gramáticas mais recentes dizem sobre isso?
Gramáticas normativas atuais, como a “Nova Gramática do Português Contemporâneo” (Cunha & Cintra) e “Moderna Gramática Portuguesa” (Bechara), mantêm a mesma regra: crase não ocorre diante de verbos no infinitivo. Os manuais de redação da Folha de S.Paulo, Estadão e veículos jurídicos também orientam o uso de “a fazer”. A recomendação é unânime.
Resumo Final
Ao longo deste artigo, vimos que a forma correta é sempre “a fazer”, sem crase. A expressão “à fazer” constitui erro gramatical, pois o verbo no infinitivo não admite artigo feminino, e a crase exige a fusão da preposição com um artigo ou pronome feminino que, nesse caso, inexiste. A confusão é alimentada por falsas impressões de formalidade e pela semelhança com outras construções que realmente levam crase, mas a regra é clara e universal: nunca se usa crase antes de verbo.
Dominar esse ponto gramatical é fundamental para quem deseja escrever com precisão, seja em contextos acadêmicos, profissionais ou cotidianos. Erros de crase são facilmente notados por avaliadores e podem comprometer a credibilidade de um texto. Por isso, pratique com os exemplos fornecidos, memorize a dica de substituição e consulte sempre uma gramática ou fontes confiáveis quando tiver dúvida.
Lembre-se de que a língua é viva, mas as regras que garantem a clareza e a padronização da comunicação escrita permanecem. Ao adotar o uso correto de “a fazer”, você contribui para a qualidade da sua escrita e demonstra domínio do português formal.
Materiais de Apoio
- Migalhas: “A fazer – Está correto?” — Artigo da coluna Gramatigalhas que explica a correção de “a fazer” e a inadequação de “à fazer”.
- Dicio: “Fazerem ou fazer” — Esclarece dúvidas sobre a conjugação do verbo “fazer” e contextos de uso.
- Brasil Escola: “A ou há: entenda quando utilizar cada forma” — Aborda a diferença entre “a” (preposição) e “há” (verbo haver), complementando o estudo de preposições.
- Mundo Educação: “Faz ou fazem: qual a diferença e quando usar?” — Explica a concordância do verbo “fazer”, útil para evitar outros erros comuns relacionados ao mesmo verbo.
